Vestibular URCA 2017.2: resumos e comentários das obras Destaque

Escrito por  Terça, 25 Abril 2017 19:32

Confira abaixo o resumo e comentários das obras indicadas para o vestibular 2017.2 da Universidade Regional do Cariri - URCA. Os resumos não substituem a leitura integral das obras, mas dão uma ideia do enredo e dos autores. Boa leitura e boa prova a todos (as).

 

Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha

 

Análise da obra

O romance Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha, faz parte do Realismo e do Naturalismo. A história de paixão e tragédia não é produto de fantasia romântica, mas baseada num fato real que escandalizou o Rio de Janeiro no século XIX.

Caminha constrói a partir de um fato verídico, uma ficção forte, ousada, muito atual até os dias de hoje. Fez isso para chocar e se vingar da sociedade hipócrita que o rodeava. Bom-Crioulo, publicado em 1895, é dividido em 12 capítulos, onde a ação se passa na segunda metade do século XIX, no Rio de Janeiro. Destacam-se o espaço aberto, normalmente dias claros e quentes, o mar aberto, e o espaço fechado do quartinho de Amaro.

Boa parte da força e da eficácia de Bom-Crioulo está no manejo lúcido que o autor faz desses conflitos, escolhendo o quê, quando e como contar deste verdadeiro enredo de notícia de jornal sensacionalista. A narrativa é simples e direta, mas tem as suas manhas: não entrega o jogo facilmente, cria suspenses, vai e volta no tempo, de modo a dar a cada momento, a cada situação, a sua atualidade e a sua história, o seu desenvolvimento próprio. Assim, o enredo central se desdobra em alusões a muitas outras histórias; e o dia-a-dia do século XIX brasileiro se insinua a cada passo, fazendo ecoar as falas e as ações das personagens centrais.

A intenção do romance resume-se em acompanhar as personagens em seu movimento, como se fosse o expectador que registra a evolução do drama alheio sem interferir. Nele tudo caminha numa ordem inalterável até o epílogo, com uma supervalorização do instinto sobre os sentimentos, do animal sobre o racional.

Foco narrativo

Narrado em 3ª pessoa, por narrador onisciente, percebe-se que as inúmeras descrições que aparecem no romance, condizentes com a estética naturalista que privilegia a observação meticulosa dos fatos, buscam não se confundir com a história, nem com as personagens.

Preso aos ideais do escritor naturalista — exatidão na descrição, apelo à minúcia e culto ao fato — o narrador conta a história de modo linear, gradativo, utilizando-se de uma linguagem clara, direta, objetiva, com poucos objetivos. O que será importante são os fatos narrados e não a opinião que se pode ter sobre eles. Não há, portanto, da parte desse narrador, qualquer julgamento moral das personagens.

A história quase se narra por si, pela exposição direta dos fatos, que vão montando a estrutura narrativa, ou seja, a história das três personagens envolvidas num caso de amor: Amaro, Carolina e Aleixo.

Temática

O tema principal é a dificuldade do amor homossexual, centrado na relação entre o negro Amaro e o jovem e bonito Aleixo. Faz presente também o tema da mulher madura que deseja um amante jovem. A originalidade de Bom-Crioulo se manifesta no triângulo amoroso sobre o qual se sustenta. Tradicionalmente, um triângulo amoroso é composto por dois homens em luta por uma mulher, ou duas mulheres que disputam o mesmo homem. Em Bom-Crioulo, Amaro e Aleixo são marinheiros e, acima de tudo, como tal se comportam, favorecendo a anulação das diferenças étnicas, que se dá não pela ascensão do negro fugido, mas pelo rebaixamento de ambos à condição de prisioneiros do mesmo sistema e do “vício”. Por fim, o terceiro do triângulo é uma mulher que atua como homem, pois conquista Aleixo em vez de ser conquistada. Adolfo Caminha colhe ao vivo, de sua experiência como oficial da marinha, o material do romance.

Este tema do romance, o homossexualismo, manifesto na construção do triângulo amoroso, é tratado com crueza e sem nenhum indício de preconceito pelo escritor naturalista, que vê no vício um objeto de estudo que deve ser esclarecido e compreendido.

O homossexualismo, encarado no romance como vício ou perversão, é tratado, portanto, através de um olhar naturalista e, consequentemente, limitado: não há o enfoque mais subjetivo dos sentimentos despertados; não há autonomia do caráter: as personagens estão acorrentadas às leis deterministas (não há drama de consciência ou mesmo drama moral).

Há uma resposta mecânica, instintiva aos fatos e, nesse sentido, o livro perde um lado da questão, o que não esmaece sua força e valor literário.

Outro tema é a problemática da vida dos marinheiros, que ficam a maior parte do tempo longe da terra e de mulheres, o sofrimento dos castigos corporais impiedosos e rigorosos. Este é a temática que se entrelaça com o tema central.

Tempo e espaço

O romance se passa em dois espaços: no mar, a bordo de uma corveta, e na Rua da Misericórdia, localizada nos subúrbios do Rio de Janeiro, nos fins do século XIX. Os dois lugares são descritos em seus aspectos mais degradantes e negativos, ressaltando a miséria daqueles que aí vivem.

A abertura do romance se faz com uma detalhada descrição da corveta, local inicial da ação.

Por meio de uma descrição minuciosa e da riqueza de detalhes que ajudam a compor o ambiente externo, percebe-se como o autor naturalista se debruça sobre o meio que terá um papel decisivo no comportamento das personagens.

O ambiente de bordo é marcado pelo trabalho duro e por uma vida sem privacidade, o que possibilita a eclosão das mais diversas perversões. O ajuntamento de homens favorecia a promiscuidade entre seres que vivenciam a solidão da reclusão da vida no mar e que, sobretudo, sentiam a falta de liberdade, vítimas de um sistema duro e cruel - a vida na Marinha:

Mas, havia ordem para não desembarcar, e Bom-Crioulo, como toda a guarnição, passou a tarde numa sensaboria, cabeceando de fadiga e sono, ocupado em pequenos trabalhos de asseio e manobras rudimentares. - Diabo de vida sem descanso! O tempo era pouco para um desgraçado cumprir todas as ordens. E não as cumprisse! Golilha com ele, quando não era logo metido em ferros... Ah! Vida, vida!... Escravo na fazenda, escravo a bordo, escravo em toda parte... E chamava-se a isso servir á Pátria!

Por esse trecho, pode-se notar uma crítica implícita a Abolição dos Escravos que parece não passar de uma ilusão, já que os homens provenientes das camadas mais baixas da população continuam a ser explorados.

Num segundo momento, a história se desloca para a terra, mais precisamente para um quarto na Rua da Misericórdia, onde Amaro e Aleixo, após terem se conhecido no navio, vivem o ápice e o declínio de seu relacionamento.

Ao retratar o espaço urbano, Adolfo Caminha fala a respeito de um tipo de moradia muito comum no Rio de Janeiro, durante o final do século XIX: as habitações coletivas. Os habitantes dessas moradias eram brancos, mulatos e mestiços, sempre pessoas exploradas. Ao redor dessas habitações, há a presença de negociantes portugueses em ascensão, como o açougueiro que sustenta D. Carolina, e que se aproveitam, de algum modo, da miséria dessas pessoas.

Desse modo, o comportamento das personagens está condicionado pela pobreza do ambiente que as circunda e que, por sua vez, é decorrente do momento histórico por que passava o Brasil, durante o Segundo Reinado.

Personagens

Em Bom-Crioulo, Caminha constrói com segurança e coerência o personagem Amaro, mulato dominado pela paixão homossexual, que o leva para caminhos sadomasoquistas à perversão e finalmente ao crime. O autor soube manejar as cenas e personagens com naturalidade.

As personagens de um romance naturalista raramente são dotadas de alguma profundidade psicológica. Muito próximas dos tipos, também chamados de personagens planas, não evoluem no decorrer da narrativa, de forma que suas ações apenas confirmam as poucas características que as definem.

Amaro: protagonista, ex-escravo convocado para a marinha. Trata-se de um homem muito forte, com trinta anos de idade e que não conseguiu realizar-se sexualmente com as mulheres. Duas tentativas deram-lhe grande decepção e o deixaram frustrado. Só conseguiu consumar o ato com o jovem Aleixo. Apresenta certa profundidade psicológica, mas que é totalmente envolvido por sentimentos e instintos que o dominam, impedindo-o de perceber com clareza a situação conflituosa que vive. Algumas vezes, surgem percepções esparsas, mas nada suficientemente forte para modificar o destino do negro, movido pela paixão. Por um lado, Amaro é extremamente forte fisicamente. Sua força provém do trabalho escravo e depois do trabalho na Armada, em que se engajara após ter fugido da fazenda. Os castigos físicos que lhe foram impingidos, tanto pelo feitor quanto a bordo, tornaram-lhe resistente e lhe deram a energia de um animal brioso. A força do negro é realçada pelo narrador, numa das cenas iniciais do romance, por meio da descrição de uma cena em que Amaro está sendo punido com a chibata: — Uma! cantou a mesma voz. — Duas!.., três!...

Aleixo: grumete, belo rapaz de olhos azuis, que embarca no sul. Tem quinze anos e mexe sexualmente com Amaro. Cede às investidas e caprichos do crioulo, mas quando aparece ocasião troca-o por uma mulher. Isso o leva ser assassinado por Amaro, por causa do ciúme. Aleixo surge desde o princípio como o oposto de Amaro: branco, fisicamente fraco e pueril, subjugado pelas circunstâncias e por quem lhe é mais forte — será assim com Amaro e com Carolina. O ar de submissão de Aleixo vai transfigurando-se, ao longo da narrativa, numa espécie de esperteza camaleônica. Nada sabemos sobre seu passado, a não ser que era filho de uma pobre família de pescadores que o tinham feito entrar para a Marinha em Santa Catarina. A ligação com Amaro oferece-lhe um novo mundo, bastante diferente daquele de sua origem, e que lhe propicia, acima de tudo, favores e proteção.

D. Carolina: amiga e rival de Amaro. É amiga de Amaro por tê-lo salvo em um assalto e inimiga por depois conquistar o namorado do crioulo. D. Carolina era uma portuguesa que alugava quartos na Rua da Misericórdia somente a pessoas de “certa ordem”, gente que não se fizesse de muito honrada e de muito boa, isso mesmo rapazes de confiança, bons inquilinos, patrícios, amigos velhos... Não fazia questão de cor e tampouco se importava com a classe ou profissão do sujeito, Marinheiro, soldado, embarcadiço, caixeiro de venda, tudo era a mesmíssima cousa: o tratamento que lhe fosse possível dar a um inquilino, dava-o do mesmo modo aos outros. D. Carolina revela-se, desde o início, uma mulher de negócios, cuja mercadoria era seu próprio corpo. Teve seus revezes e conseguiu se reerguer, observando como poderia lucrar com os outros, já que também lucravam com ela. No entanto, vive só.

Herculano: marinheiro dotado de certa melancolia. Relaxado, tinha as unhas sujas. Evitava a companhia dos outros. Foi preso e castigado por ter sido apanhado se masturbando.

Agostinho: o guardião. Homem de grande estatura, reforçado, especialista em dar chibatadas. Ama sua profissão, por isso permanecia a maior parte do tempo a bordo.

Santana: marinheiro que sofreu castigo por ter brigado com Herculano. Era gago, chorava com facilidade e era manhoso.

Enredo

A obra Bom-Crioulo não padece das inverosimilhanças de A Normalista, do mesmo autor. Mais denso e enxuto, apresenta um ótimo retrata da vida de marinheiros durante a 2ª metade do século XIX, no Rio de Janeiro. A personagem principal, o mulato Amaro, é bastante coerente em sua passionalidade. Vários episódios do romance também refletem a própria vivência do autor a bordo de navios, registrando a aspereza da vida no mar, da brutalidade dos castigos corporais, já denunciados por Caminha em seu tempo de estudante.

O romance realça pela originalidade da situação dramática: dois marinheiros - Amaro, apelidado o Bom-Crioulo, um “latagão de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre... com um formidável Sistema de músculos” e Aleixo “um belo marinheiro de olhos azuis” - brutalizados e solitários pela vida a bordo de um navio, afeiçoam-se e entretêm relações homossexuais. Ao desembarcarem na cidade do Rio de Janeiro, vão viver em um cômodo alugado por uma portuguesa, ex-prostituta, D. Carolina. Mas o idílio amoroso entre Amaro e Aleixo é interrompido pelo dever de voltar ao mar:

Decorreu quase um ano sem que o fio tenaz dessa amizade misteriosa, cultivada no alto da Rua da Misericórdia, sofresse o mais leve abalo. Os dois marinheiros viviam um para o Outro: completavam-se /.../ Mas Bom-Crioulo um dia foi surpreendido com a notícia de que estava nomeado para servir noutro navio.

 

Questões

01. 

Chega!

Meus olhos brasileiros se fecham saudosos.

Minha boca procura a “Canção do Exílio”.

Como era mesmo a “Canção do Exílio”?

Eu tão esquecido de minha terra…

Ai terra que tem palmeiras

onde canta o sabiá!

(Carlos Drummond de Andrade, Europa, França e Bahia, Alguma poesia)

 

Neste excerto, a citação e a presença de trechos ........... constituem um caso de ........... .

Os espaços pontilhados da frase acima deverão ser preenchidos, respectivamente, com o que está em:

a) do famoso poema de Álvares de Azevedo / discurso indireto.

b) da conhecida canção de Noel Rosa / paródia.

c) do célebre poema de Gonçalves Dias / intertextualidade.

d) da célebre composição de Villa-Lobos / ironia.

e) do famoso poema de Mário de Andrade / metalinguagem.

 

02. Sobre linguagem literária e estilos literários, indique a alternativa INCORRETA:

a) A linguagem da poesia simbolista tende a ser mais vaga e imprecisa, e vem cercada por musicalidade, a exemplo do verso: “Véus neblinosos, longos véus de viúvas”.

b) Os poetas românticos fizeram uso de uma linguagem excessivamente adjetivada, cujo objetivo era a expressão dos estados de alma do poeta, como no verso: “A tarde está tão bela, e tão serena”.

c) A poesia parnasiana ficou marcada por uma linguagem espontânea, cujas palavras ornamentais ampliavam o significado, como no verso: “Purpúreas velas de real trirreme”.

d) A partir do Modernismo a poesia passou a se expressar em uma linguagem menos clássica e mais voltada para o cotidiano, como no verso: “Estes cães da roça parecem homens de negócio”.

e) n.d.a.

 

03. Considere o que se afirma abaixo, sobre a obra de Graciliano Ramos:

I. Exprime a realidade crua do homem nordestino.

II. O romance São Bernardo, considerado uma obra-prima de nossa literatura, é narrado por Paulo Honório, que conta sua vida com a esposa, Madalena.

III. O estilo dos textos é enxuto e trabalhado com rigor.

Deve-se dizer, a respeito dessas afirmações, que:

a) apenas I está correta.

b) apenas I e II estão corretas.

c) todas estão corretas.

d) somente II está correta.

e) somente I e III estão corretas.

 

04. Na novela Miguilim, de Guimarães Rosa, o leitor compreenderá que as sofridas experiências de menino no Mutum permitirão que o protagonista, quando adulto,

a) procure esquecê-las, valorizando a vida que passou a ter depois de superar as privações de sua infância vazia.

b) a elas se refira de modo a compensar aqueles momentos negativos com as fantasias que agora lhes acrescenta.

c) a elas se refira com o natural ressentimento de quem olha para o passado e percebe que só tem perdas a lamentar.

d) as retome para analisar sua fragilidade de criança, em meio às condições penosas daquela rotina sem revelações

e) as retome para valorizar o aprendizado profundo da infância, que incluiu as perdas afetivas e o ganho de quem descobre.

 

05. Marque a alternativa em que predominam todas as características na primeira fase poética de Vinícius de Moraes:

a) Desordem sensorial; estética primitivista e de base antropológica; hermetismo.

b) Religiosidade mística; visão idealista em poemas longos; erotismo conflituoso.

c) Narratividade épica; recriação de lendas e tradições brasileiras; imagens oníricas.

d) Anarquismo formal; concepção irracional da existência; culto da blague e da piada.

e) Poesia de participação social; valorização do trabalho humano; temática nacionalista.

 

06. O fragmento textual que segue, retirado da narrativa A terceira margem do rio, de João Guimarães Rosa, servirá de base para esta questão.

Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio — o rio — pondo perpétuo [grifo nosso]. Eu sofria já o começo da velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais.

De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar o vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranquilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando ideia.

ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1976.

No quadro do Modernismo literário no Brasil, a obra de Guimarães Rosa destaca-se pela inventividade da criação estética.

Considerando-se o fragmento em análise, essa inventividade da narrativa roseana pode ser constatada através do(a):

a) recriação do mundo sertanejo pela linguagem, a partir da apropriação de recursos da oralidade.

b) aproveitamento de elementos pitorescos da cultura regional que tematizam a visão de mundo simplista do homem sertanejo.

c) resgate de histórias que procedem do universo popular, contadas de modo original, opondo realidade e fantasia.

d) sondagem da natureza universal da existência humana, através de referência a aspectos da religiosidade popular.

e) Todas as afirmativas são corretas.

 

07. Em relação à obra Meus Poemas Preferidos, de Manuel Bandeira, assinale a alternativa INCORRETA:

a) Em Desalento, poema inicial da coletânea, Manuel Bandeira expõe sua arte poética, que consiste em afirmar o afastamento da vida em relação à poesia, presente nestes versos: “E nestes versos de angústia rouca / Assim dos lábios a vida corre, / Deixando um acre sabor na boca.”

b) Em Os sapos, Bandeira estabelece um juízo crítico e negativo contra os poetas parnasianos: “O sapo-tanoeiro, / Parnasiano aguado, / Diz: - ‘Meu cancioneiro/É bem martelado.’”

c) Em Meninos carvoeiros, Bandeira narra a vida dos meninos pobres, mas o faz, suspendendo a tragicidade à medida que a narrativa-poema é dada também pelo ponto-de-vista dos meninos:“Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis.”

d) Em Pneumotórax, Bandeira trata da morte e da doença com pouca dramaticidade e sentimentalismo.

e) Nos versos “Criou-me, desde eu menino, / Para arquiteto meu pai. / Foi-se-me um dia a saúde...”, percebemos o tom autobiográfico em que Bandeira poetiza a sua saúde debilitada, tema recorrente em sua obra.

 

08. “Passa gente vindo da feira. Agora temos uma feira aqui perto de casa. Para mim apenas movimenta a esquina, com tantas empregadas e donas-de-casa carregadas de sacos e cestas de frutas, verduras e legumes. Ao poeta Drummond, que mora mais além, a feira deve incomodar, porque os grandes caminhões roncam sob a sua janela, e o vozerio dos mercadores e freguesas perturba o seu sono matinal.

O que não tem a menor importância: na atual situação do mundo é bom que os poetas estejam vigilantes. Quanto aos cronistas, que eles durmam em paz; é melhor que se recolham e se esqueçam de fazer a crônica destes dias, em que não há nenhum exemplo nem lição. O poeta é mais adequado para ouvir as exclamações patéticas (“os tomates estão pela hora da morte”) e tomar o pulso dos fatos concretos da mercancia local. Além disso deve subir até sua janela a fragrância das verduras e de todas essas coisas nascidas na terra, ainda frescas e vivas, coloridas. É bom que ele veja as quinquilharias ingênuas, as ervas misteriosas, as pequenas inúteis e preciosas coisas do mar e do sertão, os cavalos-marinhos e as sementes escuras. Só ele poderá entender as coisas de barro e de palha, a glória dos tomates, o espanto de pedra no olho dos peixes eviscerados, e o constrangimento amarelo desses abacaxis sem sabor que amadurecem no meio do inverno.” (Rubem Braga, A feira)

O fragmento acima permite compreender os seguintes aspectos de 200 Crônicas Escolhidas, EXCETO:

a) a aproximação entre a poesia e a crônica, empregando o cronista recursos utilizados pelos poetas.

b) a transformação do cotidiano em assunto para as crônicas.

c) a construção da crônica a partir de uma confissão da falta de assunto, de vontade ou de tempo para escrever.

d) a transformação de acontecimentos corriqueiros em “exemplo” ou “lição”.

e) o interesse do cronista exclui as “coisas nascidas na terra”, “quinquilharias”.

 

09. Os trechos abaixo são do romance Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha. Assinale a alternativa em que o comportamento humano não é explicado por leis biológicas.

a) “E agora, como é que não tinha forças para resistir aos impulsos do sangue? Como é que se compreendia o amor, o desejo da posse animal entre duas pessoas do mesmo sexo, entre dois homens?”

b) “Nunca se apercebera de semelhante anomalia (...) As mulheres o desarmavam para os combates do amor (...) E o mais interessante é que ‘aquilo’ ameaçava ir longe, para mal de seus pecados... Não havia jeito, senão ter paciência, uma vez que a ‘natureza’ impunha-lhe esse castigo.”

c) “Afinal de contas era homem, tinha suas necessidades, como qualquer outro: fizera muito em conservar-se virgem até aos trinta anos (...) sendo muitas vezes obrigado a cometer excessos que os médicos proíbem (...) É que nem todos têm força para resistir: a natureza pode mais que a vontade humana...”

d) “Isso de se dizer que o comandante preferia um sexo a outro nas relações amorosas podia ser uma calúnia como tantas que se inventam por aí... Ele, Bom-Crioulo, não tinha nada que ver com isso. Era uma questão à parte, que diabo! ninguém está livre de um vício.”

e) “Esse movimento indefinível que acomete ao mesmo tempo duas naturezas de sexos contrários, determinando o desejo fisiológico da posse mútua, essa atração animal que faz o homem escravo da mulher e que em todas as espécies impulsiona o macho para a fêmea, sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeira vez com Aleixo.”

 

10. O REBANHO

Oh! minhas alucinações!

Vi os deputados, chapéus altos,

Sob o pálio vesperal, feito de mangas-rosas,

Saírem de mãos dadas do Congresso...

Como um possesso num acesso em meus aplausos

Aos salvadores do meu estado amado!...

 

Desciam, inteligentes, de mãos dadas,

Entre o trepidar dos táxis vascolejantes,

A rua Marechal Deodoro...

Oh! minhas alucinações!

Como um possesso num acesso em meus aplausos

Aos heróis do meu estado amado!...

E as esperanças de ver tudo salvo!

Duas mil reformas, três projetos...

Emigram os futuros noturnos...

E verde, verde, verde!...

Oh! minhas alucinações!

Mas os deputados chapéus altos,

Mudavam-se pouco a pouco em cabras!

Crescem-lhes os cornos, descem-lhes barbinhas...

E vi os chapéus altos do meu estado amado,

Com os triângulos de madeira no pescoço,

os verdes esperanças, sob as franjas de ouro da tarde,

Se punham a pastar

Rente do Palácio do senhor presidente...

Oh! minhas alucinações!” (Mário de Andrade: Pauliceia Desvairada)

 

Assinale a alternativa correta sobre o poema acima:

a) Introduz vocabulário característico da civilização tecnológica.

b) Retrata o cotidiano como matéria para a poesia.

c) Revela na sua sintaxe a influência do futurismo.

d) Contém uma releitura crítica de episódios da história nacional.

e) Demonstra descrença na forma democrática de governo.

 

 

A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós

Análise da obra

Publicado em 1901, no ano seguinte ao da morte de Eça de Queirós, o romance A Cidade e as Serras foi desenvolvido a partir da ideia central contida no conto Civilização, datado de 1892. É um romance denso, belo, ao longo do qual Eça de Queirós ironiza ferrenhamente os males da civilização, fazendo elogio dos valores da natureza. É uma obra das mais significativas de Eça de Queirós. Nela o escritor relata a travessia de Jacinto de Tormes, um ferrenho adepto do progresso e da civilização - da cidade para as serras. Ele troca o mundo civilizado, repleto de comodidades provenientes do progresso tecnológico, pelo mundo natural, selvagem, primitivo e pouco confortável, no sentido dos bens que caracterizam a vida urbana moderna, mas onde encontra a felicidade, mudando radicalmente de opinião.

A Cidade e as Serras preconiza uma relação entre as elites e as classes subalternas na qual aquelas promovessem estas socialmente, como faz Jacinto ao reformar sua propriedade no campo e melhorar as condições vida dos trabalhadores. Por meio do personagem central, Jacinto de Tormes, que representa a elite portuguesa, a obra critica-lhe o estilo de vida afrancesado e desprovido de autenticidade, que enaltece o progresso urbano e industrial e se desenraiza do solo e da cultura do país. Na obra, a apologia da natureza não pode ser confundida com o elogio da mesmice e da mediocridade da vida campestre de Portugal. Ao contrário, trata-se de agigantar o espírito lusitano, em seu caráter ativo e trabalhador. Assim, podemos afirmar que depois da tese (a hipervalorização da civilização) e da antítese (a hipervalorização da natureza), o protagonista busca a síntese, ou seja, o equilíbrio, que vem da racionalização e da modernização da vida no campo. Um argumento para tal interpretação está no fato de que, quando se desloca para a serra, Jacinto sente uni irresistível ímpeto empreendedor, que luta inclusive contra as resistências dos empregados ao trabalho.

Concluindo, Jacinto de Tormes, ao buscar a felicidade, empreendeu uma viagem que o reencontrou consigo mesmo e com o seu país. Tal viagem, que concomitantemente é exterior e interior, abarca a pátria portuguesa e se reveste de uma significação particular, pode ser lida como um processo de autoconhecimento: um novo Portugal e um novo português se percebem nas serras que querem utilizam da cidade o necessário para se civilizarem sem se corromperem.

Podemos considerar A Cidade e as Serras um romance no qual se destaca a categoria espaço, na medida em que os ambientes são fundamentais para a compreensão da história, destacando-se os contrastes por meio dos quais se contrapõem. Assim, a amplidão da quinta de Tormes contrasta com a estreiteza do universo tecnológico do 202, o que aponta para a oposição entre o espaço civilizado e o espaço natural, presente em todo o romance.

Foco narrativo

Escrito em primeira pessoa, A Cidade e as Serras, como a maioria dos romances de Eça de Queirós, há um narrador-personagem, José Fernandes, o qual não se confunde com o protagonista da obra, Jacinto de Tormes. Este narrador coloca-se como menos importante do que o protagonista, como podemos perceber, por exemplo, no início da obra. Nos primeiros parágrafos do livro o narrador, em vez de apresentar-se ao leitor, coloca-se em segundo plano para apresentar toda a descendência dos de Tormes, até aparecer a figura de Jacinto. Além disso, dá-lhe tratamento diferenciado, parecendo idealizar Jacinto, na medida em que o chama de "Príncipe da Grã-Ventura", conforme apelido estudantil do protagonista.

Personagens

Uma particularidade da personagem José Fernandes, está na importância que dá aos instintos, sobrepondo-os à sua capacidade de sentir ou de pensar. Assim, tanto desilusões amorosas quanto preocupações sociais são tratadas com almoços extraordinários. Ao longo do romance ele procura provar o engano que as crenças civilizatórias de seu amigo, Jacinto de Tormes, podem conduzir, embora o admire exageradamente.

Jacinto de Tormes é filho de uma família de fidalgos portugueses, mas nascido e criado em Paris. Se cerca de artefatos da civilização e de tudo o que a ciência produz de mais moderno. Entretanto, o excesso de ócio e conforto o entedia, a ponto de fazê-lo perder o apetite, a sede lendária, a robustez física e a disposição intelectual da juventude. Levado pelas circunstâncias a conhecer suas propriedades nas serras portuguesas, apaixona-se pelo campo, lá introduzindo algumas inovações. Mesmo em contato com a natureza, Jacinto não abandona alguns de seus hábitos urbanos. Desenha futuras hortas, planeja bibliotecas na quinta, traz banheiras e vidros desconhecidos dos habitantes do lugar. Por fim, manda instalar uma linha telefônica nas serras, o que comprova que no fundo não houve grandes modificações em suas crenças.

Ele representa não apenas uma crítica do escritor à ultracivilização, mas também a utopia de um novo Portugal, uma nova pátria, capaz de modernizar-se, sem perder as tradições e as particularidades nacionais. Trata-se, enfim, de um D. Sebastião atualizado pelo socialismo e pelo positivismo. A trajetória percorrida pelo protagonista Jacinto de Tormes deve-se em grande parte, às instâncias e insistências de José Fernandes, que ao mesmo tempo é contador da história e um de seus personagens principais.

Os personagens ligados à vida no campo caracterizam-se por atitudes simples e transparentes, embora tradicionalistas. Um exemplo pode ser o avô de Jacinto, Gatão, cuja ligação ancestral com o referido ambiente manifesta-se pela total devoção à realeza absolutista, que o leva a abandonar Portugal depois da expulsão de D. Miguel. Entretanto, a melhor representação desse grupo de personagens da obra pode ser atribuída a Joaninha, a mulher por quem Jacinto se apaixona, graças a seus atributos naturais e sua simplicidade de espírito.

Enredo

O narrador centraliza seu interesse na figura de um certo Jacinto, descrevendo-o como um homem extremamente forte e rico, que, embora tenha nascido em Paris, no 202 dos Campos Elíseos, tem seus proventos recolhidos de Portugal, onde a família possui extensas terras, desde os tempos de D. Dinis, com plantações e produção de vinho, cortiça e oliveira, que lhe rendem bem. O avô de Jacinto, também Jacinto, gordo e rico, a quem chamavam D. Galeão, era um fanático miguelista. Quando D. Miguel deixou o poder, Jacinto Galeão exilou-se voluntariamente em Paris, lá morrendo de indigestão. D. Angelina Fafes, após a morte do marido, não regressou a Portugal, e, em Paris, criou seu filho, o franzino e adoentado Cintinho que se casou com a filha de um desembargador, nascendo desta união nosso protagonista.

Desde pequeno Jacinto brilhara, quer por sua inteligência, quer por sua capacidade. Aos 23 anos tornou-se um soberbo rapaz, vestido impecavelmente, cabelos e bigodes bem tratados, e feliz da vida. Tudo de melhor acontecia com ele, sendo chamado pelos companheiros de “Príncipe da Grã-Ventura”. Positivista animado, Jacinto defendia a ideia de que “o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado”. A maior preocupação de Jacinto era defender a tese de que a civilização é cidade grande, é máquina e progresso que chegavam através do fonógrafo, do telefone cujos fios cortam milhares de ruas, barulhos de veículos, multidões... Civilização é enxergar à frente.

Com estes olhos que recebemos da Madre Natureza, lestos e sãos, nós podemos apenas distinguir além, através da Avenida, naquela loja, uma vidraça alumiada. Nada mais! Se eu porém aos meus olhos juntar os dois vidros simples de um binóculo de corridas, percebo, por trás da vidraça, presuntos, queijos, boiões de geleia e caixas de ameixa seca. Concluo, portanto, que é uma mercearia. Obtive uma noção: tenho sobre ti, que com os olhos desarmados vês só o luzir da vidraça, uma vantagem positiva. Se agora, em vez destes vidros simples, eu usasse os de meu telescópio, de composição mais científica, poderia avistar além, no planeta Marte, os mares, as neves, os canais, o recorte dos golfos, toda a geografia de um astro que circula a milhares de léguas dos Campos Elísios. É outra noção, e tremenda! Tens aqui, pois, o olho primitivo, o da natureza, elevado pela Civilização à sua máxima potência da visão. E desde já, pelo lado do olho, portanto, eu, civilizado, sou mais feliz que o incivilizado, porque descubro realidades do universo que ele não suspeita e de que está privado. Aplica esta prova a todos os órgãos e compreende o meu princípio. Enquanto à inteligência, e à felicidade que dela se tira pela incansável acumulação das noções, só te peço que compares Renan e o Grilo... Claro é, portanto, que nos devemos cercar de Civilização nas máximas proporções para gozar nas máximas proporções a vantagem de viver.

Em fevereiro de 1880, José Fernandes foi chamado pelo tio e parte para Guiães e, somente após sete anos de vida na província, retorna e reencontra Jacinto no 202 dos Campos Elíseos. O narrador presenciou coisas espantosas: um elevador para ligar dois andares do palacete; no gabinete de trabalho havia aparelhos mecânicos cheios de artifício; e, enquanto Jacinto escreve para Madame d’Oriol, José Fernandes visita uma enorme biblioteca de trinta mil títulos, os mais diversos possíveis, dos mais renomados autores às mais diferentes ciências. A visita termina com uma refeição em que foram servidas as mais sofisticadas iguarias e um convite de Jacinto ao narrador que ele se hospede no 202.

Primeiros desencantos

José Fernandes, a partir daí, pôde observar com maior atenção o amigo; suas intensas atividades o desgastavam e, com o passar do tempo, constatou que Jacinto foi perdendo a credulidade, percebendo a futilidade das pessoas com quem convivia, a inutilidade de muitas coisas da sua tão decantada civilização. Nos raros momentos em que conseguiam passear, confessava ao amigo que o barulho das ruas o incomodava, a multidão o molestava: ele atravessava um período de nítido desencanto. Alguns incidentes contribuíram sobremaneira para afetar o estado de ânimo de Jacinto: o rompimento de um dos tubos da sala de banho, fazendo jorrar água quente por todo o quarto, inundando os tapetes, foi o bastante para aparecer uma pilha de telegramas, alguns inclusive com um riso sarcástico, com o do Grão-duque Casimiro, dizendo que não mais apareceria pelo 202 sem que tivesse uma boia de salvação.

As reuniões sociais estavam ficando maçantes. Em uma recepção ao Grão-Duque, Jacinto já não aguentava o farfalhar das sedas das mulheres quando lhes explicava o uso dos diferentes aparelhos, o tetrafone, o numerador de páginas, o microfone... O criado veio lhe informar que o peixe a ser servido ficara preso no elevador e os convidados puseram-se a pescá-lo, inutilmente, porque o peixe acabou não indo para a mesa, fato que deixou ainda mais aborrecido o anfitrião.

Claramente percebia eu que o meu Jacinto atravessava uma densa névoa de tédio, tão densa, e ele tão afundado na sua mole densidade, que as glórias ou os tormentos de um camarada não o comoviam, como muito remotas, inatingíveis, separadas da sua sensibilidade por imensas camadas de algodão. Pobre Príncipe Grã-Ventura, tombado para o sofá de inércia, com os pés no regaço do pedicuro! Em que lodoso fastio caíra, depois de renovar tão brava mente todo o recheio mecânico e erudito do 202, na sua luta contra a força e a matéria!

Preocupado, Zé Fernandes consulta o fiel criado Grilo sobre o que está ocorrendo com Jacinto. O homem respondeu com tamanho conhecimento de causa que espantou o narrador. Uma simples palavra poderia definir todo o tédio de que era acometido: o patrão sofria de “fartura”.

Era fartura! O meu Príncipe sentia abafadamente a fartura de Paris; e na Cidade, na simbólica Cidade, fora de cuja vida culta e forte (como ele outrora gritava, iluminado) o homem do século XIX nunca poderia saborear plenamente a "delícia de viver", ele não encontrava agora forma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o esforço de uma corrida curta numa tipoia fácil. Pobre Jacinto! Um jornal velho, setenta vezes relido desde a crônica até aos anúncios, com a tinta delida, as dobras roídas, não enfastiaria mais o solitário, que só possuísse na sua solidão esse alimento intelectual, do que o parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Se eu nesse verão capciosamente o arrastava a um café-concerto, ou ao festivo Pavilhão d'Armenonville, o meu bom Jacinto, colado pesadamente à cadeira, com um maravilhoso ramos de orquídeas na casaca, as finas mãos abatidas sobre o castão da bengala, conservava toda a noite uma gravidade tão estafada, que eu, compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em abalar, a sua fuga de ave solta... Raramente (e então com veemente arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus clubes, ao fundo dos Campos Elíseos. Não se ocupara mais das suas sociedades e companhias, nem dos telefones de Constantinopla, nem das religiões esotéricas, nem do bazar espiritualista, cujas cartas fechadas se amontoavam sobre a mesa de ébano, de onde o Grilo as varria tristemente como o lixo de uma vida finda. Também lentamente se despegava de todas as suas convivências. As páginas da agenda cor-de-rosa murcha andavam desafogadas e brancas. E se ainda cediam a um passeio de mail-coach, ou a um convite para algum castelo amigos dos arredores de Paris, era tão arrastadamente, com um esforço saturado ao enfiar o paletó leve, que me lembrava sempre um homem, depois de um gordo jantar de província, a estalar, que, por polidez ou em obediência a um dogma, devesse ainda comer uma lampreia de ovos! 

Jazer, jazer em casa, na segurança das portas bem cerradas e bem fendidas contra toda a intrusão do mundo, seria uma doçura para o meu Príncipe se o seu próprio 202, com todo aquele tremendo recheio de Civilização, não lhe desse uma sensação dolorosa de abafamento, de atulhamento!

Certo dia, enquanto esperavam ser recebidos por Madame d'Oriol, José Fernandes e Jacinto subiram à Basílica do Sacré-Coeur, em construção no alto de Montmartre. Ao se recostarem na borda do terraço, puderam contemplar Paris envolta em uma nuvem cinzenta e fria, motivando profunda reflexões, pois a cidade - tão cheia de vida, de ouro, de riquezas, de cultura e resplandecência, incluindo o soberbo 202, com todas as suas sofisticações - estava agora sucumbida sob as nuvens cinzentas, a cidade não passava de uma ilusão.

(...) uma ilusão! E a mais marga, porque o homem pensa ter na cidade a base de toda a sua grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua miséria. Vê, Jacinto! Na Cidade perdeu ele a força e beleza harmoniosa do corpo e se tornou esse ser ressequido e escanifrado ou obeso e afogado em unto de ossos moles como trapos, de nervos trêmulos como arames, com cangalhas, com chinós, com dentauros de chumbo sem sangue, sem febre, sem viço, torto, corcunda - esse ser em que Deus, espantado, mal pôde reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Adão! Na Cidade findou a sua liberdade moral; cada manhã ela lhe impõe uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependência; pobre e subalterno, a sua vida é um constante solicitar, adular, vergar, rastejar, aturar: rico e superior como um Jacinto, a sociedade logo o enreda em tradições, preceitos, etiquetas, cerimônias, prazer, ritos, serviços mais disciplinares que os de um cárcere ou de um quartel... A sua tranquilidade (bem tão alto que Deus com ele recompensa os santos) onde está, meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha desesperada pelo pão ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gozo, ou pela fugidia rodela de ouro! Alegria como a haverá na Cidade para esses milhões de seres que tumultuam na arquejante ocupação de desejar - e que, nunca fartando o desejo, incessantemente padecem de desilusão, desesperança ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na cidade se desumanizam! Vê, meu Jacinto! São como luzes que o áspero vento do viver social não deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e faz tremer; e além brutamente apaga; e adiante obriga a flamejar com desnaturada violência. As amizades nunca passam de alianças que o interesse, na hora inquietada da defesa ou na hora sôfrega do assalto, ata apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da rivalidade ou do orgulho. E o amor, na Cidade, meu gentil Jacinto? Considera esses vastos armazéns com espelhos; onde a nobre carne de Eva se vende, tarifada ao arrátel, como a de vaca! Contempla esse velho deus do himeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da paixão a apertada carteira do dote! (...) Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a Inteligência, porque ou lha arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a extravagância. Nesta densa e pairante camada de ideias e fórmulas que constitui a atmosfera mental das cidades, o homem que a respira, nela envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados só exprime todas as expressões já exprimidas; ou então, para se destacar na pardacenta e chata rotina e trepar ao frágil andaime da gloríola, inventa num gemente esforço, inchando o crânio, uma novidade disforme que espante e que detenha a multidão. (...) Assim, meu Jacinto, na Cidade, nesta criação tão antinatural onde o solo é de pau e feltro e alcatrão, e o carvão tapa o céu, e a gente vive acamada nos prédios com o paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se murmuram através de arames - o homem aparece como uma criatura anti-humana, sem beleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem sentimento, e trazendo  em si uma espírito que é passivo como um escravo ou impudente como um histrião... E aqui tem o belo Jacinto o que é a bela Cidade!

Zé Fernandes continuou a filosofar, acrescentando preocupações de caráter pessoal, indagando a posição dos pequenos que, como vermes, se arrastavam pelo chão, enquanto os poderosos os massacravam; eles iam às óperas aquecidos, lançando aos pobres não mais que algumas migalhas. Religiosamente, acreditava ser necessário um novo Messias que ensinasse às multidões a humildade e a mansidão.

Só uma estreita e reluzente casta goza na Cidade e os gozos especiais que ele a cria. O resto, a escura, imensa plebe, só nela sofre, e com sofrimento especiais, que só nela existem! (...) A tua Civilização reclama incansavelmente regalos e pompas, que só obterá, nesta amarga desarmonia social, se o capital der ao trabalho, por cada arquejante esforço, uma migalha ratinhada. Irremediável é, pois, que incessantemente a plebe sirva, a plebe pene! A sua esfalfada miséria é a condição do esplendor sereno da Cidade. (...)

Pensativamente deixou a borda do terraço, como se a presença da Cidade, estendida na planície, fosse escandalosa. E caminhamos devagar, sob a moleza cinzenta da tarde, filosofando - considerando que para esta iniquidade não havia cura humana, trazida pelo esforço humano. Ah, os Efrains, os Trèves, os vorazes e sombrios tubarões do mar humano, só abandonarão ou afrouxarão a exploração das plebes, se uma influência celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes converter as almas! O burguês triunfa, muito forte, todo endurecido no pecado - e contra ele são impotentes os prantos dos humanitários, os raciocínios dos lógicos, as bombas dos anarquistas. Para amolecer tão duro granito só uma doçura divina. Eis pois a esperança da Terra novamente posta num Messias! ...

De Schopenhauer ao Eclesiastes: pessimismo

Como já havia planejado, o narrador partiu para uma viagem pela Europa e, ao retornar, procurou o amigo e tentou descobrir o que lhe passava na lama, pois encontrou-o mais pessimista que nunca, depressão revelada pelas leituras do Eclesiastes e do filósofo pessimista Schopenhauer. Nestas leituras, encontrava um certo amparo ao comprovar que todo mal era resultante de uma lei universal e, a partir daí, encontrou uma grata ocupação - maldizer a vida. Ao mesmo tempo, sobrecarregou sua existência com fervores humanísticos. Mas de nada adiantava, pois Jacinto estava desolado. No inverno escuro e pessimista, Jacinto acordou certa manhã e comunicou a José Fernandes que está de partida para Tormes. Decidiu viajar ao receber uma carta de Silvério, seu procurador, que dizia estarem concluídos os trabalhos de reerguimento da capela para onde seriam transladados os restos mortais de seus avós que ele não conhecera, mas que o 202 estava cheio de recordações.

Os preparativos para a viagem envolveram uma mudança da civilização para as serras. Jacinto encaixotou camas de penas, banheiras, cortinas, divãs, tapetes, livros, despachou tudo para poder enfrentar com conforto um mês nas serras. Enquanto isso; renascia nele o amor pela cidade.

Partiram os dois amigos de volta a Portugal. As cidades passavam pelas janelas do trem: da França para a Espanha, da Espanha para Portugal... Tomado por uma suave emoção, José Fernandes estava feliz em rever a pátria; Jacinto, aborrecido e enfadado principalmente porque, em Medina (Espanha), as malas ficaram em compartimentos errados quando foi feita a baldeação. O narrador, com o intuito de aclamar o amigo, diz-lhe que a Companhia cuidaria de tudo. E ficaram os dois só com a roupa do corpo. Enfim, chegaram a Tormes.

...e ambos em pé, às janelas, esperamos com alvoroço a pequenina estação de Tormes, termo ditodoso das nossas provações. Ela apareceu enfim, clara e simples, à beira do rio, entre rochas, com sues vistoso girassóis enchendo um jardinzinho breve, as duas altas figueiras assombreando o pátio, e por trás, a serra coberta de velho e denso arvoredo.

Desembarcaram em Tormes, onde o narrador encontrou o velho amigo Pimenta, chefe da estação. Após apresentar-lhe o senhor de Tormes, indagou por Silvério, o procurador de Jacinto em terras portuguesas. Começaram então outros desastres da viagem. Silvério não os aguardava: havia partido há dois meses para o Castelo de Vide. Os criados Grilo e Anatole, aparentemente estavam com as 23 malas em outro compartimento, não foram encontrados, o trem apitou e partiu, deixando os dois sem nada. Não havia cavalos para atravessarem a serra, pois Melchior, o caseiro, não os esperava senão para o mês seguinte. Pimenta arranjou-lhes uma égua e um burro e ambos seguiram serra cima, esquecendo, por alguns instantes, os infortúnios passados enquanto contemplavam a beleza da paisagem. O pior ainda estava por acontecer: os caixotes despachados de Paris há quatro meses não haviam chegado, e o mais civilizado dos homens estava totalmente à mercê das serras. Como ninguém os esperava, a casa não estava pronta para recebê-los, a reforma acontecia devagar, os telhados ainda continuavam sem telhas, a vidraças sem vidros. Zé Fernandes sugeriu que rumassem para a casa de sua tia Vicência em Guiães e Jacinto retrucou que ia mesmo para Lisboa.

Melchior arranjou como pôde um jantarzinho, caseiro e simples, longe das comidas sofisticadas, das taças de cristal, dos metais e porcelanas. Uma comida que serviu para matar gostosamente a fome dos viajantes. O senhor de Tormes regalou-se com o jantar que lhe parecera, à primeira vista, insuportável; e o caseiro, diante das manifestações de regozijo perante a comida, pensou que seu senhor passava fome em Paris.

O bom caseiro sinceramente cria que, perdido nesses remotos Parises, o senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e minguava... E o meu Príncipe, na verdade, parecia saciar uma velhíssima fome e uma longa saudade da abundância, rompendo assim, a cada travessa, em louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da salada aquele apetecera na horta, agora temperada com um azeite da serra digno dos lábios de Platão, terminou por bradar: - "É divino!" Mas nada o entusiasmava como um vinho de Tormes, caindo do alto, da bojuda infusa verde - um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma, entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando, à vela de sebo, o copo grosso que ele orlava de leve espuma rósea, o meu Príncipe, com um resplendor de otimismo na face, citou Virgílio:  

- Quo te carmina dicam, Rethica? Quem dignamente te cantará, vinho amável desta serras?

Após o jantar, ambos ficaram contemplando o céu cheio de estrelas, passaram a ver os astros que na cidade não se dignavam ou não conseguiam observar. O narrador ia-se deixando levar por um contato tão estreito com a paisagem, que em breve surgia uma identificação total do homem com a natureza e em tudo percebia-se Deus, num claro processo panteísta muito comum entre o romântico e que Eça passou a assumir.

- Oh Jacinto, que estrela é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do telhado?  

- Não sei... E aquela, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral? 

- Não sei. 

Não sabíamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorância com que saí do ventre de Coimbra, minha mãe espiritual. Ele, porque na sua biblioteca o possuía trezentos e oito tratados sobre astronomia, e o saber assim acumulado, forma um monte que nunca se transpõe nem se desbasta. Mas que nos importava que aquele astro além se chamasse Sírio e aquele outro Aldebarã? Que lhes importava a eles que um de nós fosse Jacinto, outro Zé? Eles tão imensos, nós tão pequeninos, somos a obra da mesma vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e Sande, constituímos modos diversos de um ser único, e as nossas diversidades esparsas somam na mesma compacta unidade. Moléculas do mesmo todo, governadas pela mesma lei, rolando para o mesmo fim... Do astro ao homem, do homem à flor do trevo, da flor do trevo ao mar sonoro – tudo é o mesmo corpo, onde circula como um sangue, o mesmo deus. E nenhum frêmito de vida, pormenor, passa numa fibra desse sublime corpo, que se não repercuta em todas, até às mais humildes, até às que parecem inertes e invitais. Quando um sol que não avisto, nunca avistarei, morre de inanição nas profundidades, esse esguio galho de limoeiro, embaixo na horta, sente um secreto arrepio de morte; e, quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, além o monstruoso Saturno estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo! Jacinto abateu rijamente a mão no rebordo da janela. Eu gritei:  

- Acredita! ... O sol tremeu. 

E depois (como eu notei) devíamos considerar que, sobre cada um desses grãos de pó luminoso, existia uma criação, que incessantemente nasce, perece, renasce.

O cansaço vence os dois viajantes. José Fernandes adormece sob os apelos de Jacinto para que lhe enviasse algumas peças brancas e lhe reservasse alojamento em um bom hotel de Lisboa. Uma semana depois que José Fernandes havia partido para Guiães, recebeu suas malas e imediatamente enviou um telegrama para Lisboa, endereçado ao hotel Bragança, agradecendo pela bagagem que foi encontrada e alegrando-se pelo amigo estar novamente gozando os privilégios de seres civilizados. No entanto, não obteve resposta. Certo dia, o narrador voltando de Flor da Malva, da casa de sua prima Joaninha, parou na venda de Manuel Rico, e ficou sabendo algo surpreendente através do sobrinho de Melchior: Jacinto permanecia em Tormes já há cinco semanas. Ao visitar Jacinto, José Fernandes o encontrou totalmente mudado, física e mentalmente. Nada nele denunciava um homem franzino; estava encorpado, corado, como um verdadeiro montês.

Mas o meu novíssimo amigo, debruçado da janela, batia as palmas – como Catão para chamar os servos, na Roma simples. E gritava:  

- Ana Vaqueira! Um copo de água, bem lavado, da fonte velha! 

Pulei, imensamente divertido: 

- Oh Jacinto! E as águas carbonatadas? E as fosfatadas? E as esterilizadas? E as sódicas?... 

O meu Príncipe atirou os ombros com um desdém soberbo. E aclamou a aparição de um grande copo, todo embaciado pela frescura nevada da água refulgente, que uma bela moça trazia num prato.

Um homem de bem com a vida

Era um outro Jacinto a quem o campo já não mais era insignificante. Cada momento novo era uma nova e alegre descoberta. Enfim, era um homem de bem com a sua vida. Aproveitando a presença do amigo, Jacinto providenciou a transladação dos corpos de seus antepassados para a Capelinha da Carriça, agora reconstruída. Zé Fernandes, hábil observador do amigo, percebeu que Jacinto não se contentava em ser o apreciador passivo dos encantos da natureza. Ele queria participar de tudo, e lhe surgiam grandes ideias como encher pastos, construir currais perfeitos, máquinas para produzir queijos...

Certo dia, ao percorrer seus domínios, Jacinto conheceu o outro lado da serra: uma criança muito franzina viera pedir socorro para a mãe agonizante. A partir desse momento, as decisões de Jacinto tomaram novo rumo, pois ele começou a se preocupar com o lado triste da serra, e passou a fazer caridade, reconstruir casa, dar novo alento à vida dos humildes. Em uma das inúmeras visitas que lhe fez o narrador, Jacinto confessou que pretendia introduzir um pouco de civilização naqueles cantos tão rústicos. O povo da região começou a agradecer as benfeitorias e logo passou a circular a lenda que o senhor de Tormes era D. Sebastião que havia voltado para ressuscitar Portugal.

Convidado por Zé Fernandes para o aniversário de tia Vicência, Jacinto encontraria aí a oportunidade de conhecer seus vizinhos, outros proprietários. No entanto, a recepção não foi aquilo que o narrador esperava. Havia uma frieza por parte dos habitantes da região, exceto tia Vicência que o recebeu como verdadeiro sobrinho. Ao terminarem a ceia, vieram a saber porquê daquela frieza: eles pensavam que o senhor de Tormes fosse miguelista como o avô e que pretendia restituir D. Miguel ao poder.

E só compreendi, na sala, quando o Dr. Alípio, com sua chávena de café e o charuto fumegante, me disse, num daqueles seus olhares finos, que lhe valiam a alcunha de “Dr. Agudos: ” – ‘Espero que ao menos, cá por Guiães, não se erga de novo a forca!...’ E o mesmo fino olhar me indicava a D. Teotônio, que arrastara Jacinto para entre as cortinas de uma janela, e discorria, com um ar de fé e de mistério. Era o miguelismo, por Deus! O bom D. Teotônio considerava Jacinto como um hereditário, ferrenho miguelista, - e na sua inesperada vinda ao solar de Tormes, entrevia uma missão política, o começo de um a propaganda enérgica, e o primeiro passo para uma tentativa de restauração. E na reserva daqueles cavalheiros, ante o meu Príncipe, eu senti então a suspeita liberal, o receio de uma influência rica, novas, nas eleições próximas, e a nascente irritação contra as velhas ideias, representadas naquele moço, tão rico, de civilização tão superior. Quase entornei o café, na alegre surpresa daquela sandice. E retive o Melo Rebelo, que repunha a chávena vazia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o “Dr. Agudo”.

Este jantar serviu de pretexto para o narrador mostrar a mentalidade atrasada da sociedade serrana e aquilo que a fazia sorrir Jacinto era, na verdade, um abismo entre a ignorância e o progresso. A serra estava impregnada de uma mentalidade retrógrada, ainda absolutista, enquanto no final do século polvilhavam novas teorias e doutrinas filosóficas e políticas. Tentou-se ainda um jogo de voltarete para animar a noite, mas a ameaça de uma a tempestade levou os convidados a baterem em retirada.

A manhã seguinte estava fresca e clara. José Fernandes levou o amigo até Flor da Malva, para visitar sua prima Joaninha que não pudera comparecer à reunião, pois o pai, Adrião, estava acamado. No caminho, encontraram João Torrado, um velho eremita que supôs estar diante de D. Sebastião. Esta figura ilustrava o lado da profundidade do mito na mentalidade simples, saudando Jacinto como um profeta, e tratando-o como “pai dos pobres”. Nele estão representadas a sabedoria e a simplicidade do povo.

E um estranho velho, de longos cabelos brancos, barbas brancas, que lhe comiam a face cor de tijolo, assomou no vão da porta, apoiado a um bordão, com uma caixa de lata a tiracolo, e cravou em Jacinto dois olhinhos de um brilho negro, que faiscavam. Era o tio João Torrado, o profeta da serra... Logo lhe estendi a mão, que ele apertou, sem despregar de Jacinto os olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir outro copo, apresentei Jacinto, que corara, embaraçado.

- Pois aqui tem, o senhor de Tormes, que fez por aí todo esse bem à pobreza. 

O velho atirou para ele bruscamente o braço, que saía cabeludo e quase negro, de uma manga muito curta. 

- A mão! 

E quando Jacinto lha deu, depois de arrancar vivamente a luva, João Torrado longamente lha reteve com um sacudir lento e pensativo murmurando: 

- Mão real, mão de dar, mão que vem de cima, mão já rara! 

Depois tomou o copo, que lhe oferecia o Torto, bebeu com imensa lentidão, limpou as barbas, deu um jeito à correia que lhe prendia a caixa de lata, e batendo com aponta do cajado no chão: 

- Pois louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, que por aqui me trouxe, que não perdi o meu dia, e vi um homem! 

Eu então debrucei-me para ele, mais em confidência: 

- Mas, ó tio João, ouça cá! Sempre é certo você dizer por aí, pelos sítios, que el-rei? D. Sebastião voltará? 

O pitoresco velho apoiou as duas mãos sobre o cajado, o queixo da espalhada barba sobre as mãos, e murmurava, sem nos olhar, como seguindo a procissão dos seus pensamentos: 

- Talvez voltasse, talvez não voltasse... Não se sabe quem vai, nem quem vem.

A chegada a Flor de Malva prepara o desfecho do romance. Joaninha, que não se apresenta sequer ruma fala na narrativa, jovem de uma formosura ímpar estaria destinada a ser a senhora de Tormes.

Mas, à porta, que de repente se abriu, apareceu minha prima Joaninha, corada do passo e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no pescoço, que fundia mais docemente, numa larga claridade, o esplendor branco da sua pele, e o louro ondeado dos seus belos cabelos, - lindamente risonha, na surpresa que alargava os seus largos, luminoso olhos negros, e trazendo ao colo uma criancinha, gorda e cor-de-rosa, apenas coberta cima uma camisinha, de grandes laços azuis. 

E foi assim que Jacinto, nessa tarde de setembro, na Flor da Malva, viu aquela com quem casou, em maio, na capelinha de azulejos, quando o grande pé de roseira se cobrira já de rosas.

Cinco anos se passaram em plena felicidade por ver correrem por aquelas terras duas fidalgas crianças, Teresinha e Jacinto. Os caixotes embarcados de Paris enfim chegaram a Tormes e serviam para demonstrar o total equilíbrio do protagonista, aproveitando o que poderia ser aproveitado e desprezando as inutilidades da civilização, justificando deste modo a observação feita por Grilo: Sua Excelência brotara”. Certamente Jacinto descobrira seus melhores valores: era feliz e fazia os outros felizes. Algumas vezes Jacinto falou em levar a esposa para conhecer o 202 e a civilização, mas o projeto, por um motivo ou por outro, era sempre adiado.

Quem voltou a Paris foi Zé Fernandes e lá, sentindo-se abandonado e entendiado, descobriu uma porção de fantoches a viverem uma vida falsa e mesquinha. Percebeu que os antigos conhecidos eram seres frágeis e vazios, idênticos entre si e massas impessoais, amorfas, feitas para agradar ou desagradar os outros conforme seus interesses. Não suportando a cidade, retornou a Portugal. Este serrano que anteriormente valorizava os encantos da civilização foi tomado pelos mesmos sentimentos de Jacinto e confirmou uma simples verdade: no fundo, reabilitou Eça de Queirós com o seu Portugal.

Arrastei então por Paris dias de imenso tédio. Ao longo do Boulevard revi nas vitrinas todo o luxo, que já me enfartava havia cinco anos, sem uma graça nova, uma curta frescura de invenção. Nas livrarias, sem descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarelos, onde, de cada página que ao acaso abria, se exalava um cheiro de morno de alcova, e de pó-de-arroz, de entre linhas trabalhadas com efeminado arrebique, como rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava, ornando e disfarçando as carnes ou as aves, o mesmo molho, de cores e sabores de pomada, que já de manhã, noutro restaurante, espelhado e dourejado, me enjoara no peixe e nos legumes. Paguei por grossos preços garrafas do nosso rascante e rústico vinho de Torres, enobrecido com o título de Chatêaou-isto, Château-aquilo, e pó postiço no gargalo. À noite, nos teatros, encontrava a cama, a costumada cama, como centro e único fim da vida, atraindo, mais fortemente que o monturo atrai as moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes de erotismo, zumbindo pilhérias senis. Esta sordidez da planície me levou a procurar melhor aragem de espírito nas alturas da Colina, em Montmartre; - e aí, no meio de uma multidão elegante de senhoras, de duquesas, de generais, de todo o lato pessoal da cidade, eu recebia, do alto do placo, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de gozo as orelhas cabeludas de gordos banqueiros, e arfar com delícia os corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postiços das nobres damas. E recolhia enjoado com, tanto relento de alcova, vagamente dispéptico com os molhos de pomada do jantar, e sobretudo descontente comigo, por me não divertir, não compreender a cidade, e errar através dela e da sua civilização superior, com reserva ridícula de um censor, de um Catão austero. “Oh senhores! ”, pensava eu “pois não me divertirei nesta deliciosa cidade?” Entrara comigo no bolor da velhice?

Questões

1. A única passagem que NÃO encontra apoio em A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, é

a) Em A Cidade e as Serras, José Fernandes, de rica família proveniente de Guiães, região serrana de Portugal, narra a história de Jacinto de Tormes, seu amigo também fidalgo, embora nascido e criado em Paris.

b) A Cidade e as Serras explora uma grave tese sociológica: ser-nos preferível viver e proliferar pacificamente nas aldeias a naufragar no estéril tumulto das cidades.

c) Para Jacinto, Portugal estava associado à infelicidade, enquanto Paris associava-se à felicidade; ao longo do romance, contudo, essa opinião se modifica.

d) No romance dois ambientes distintos são enfocados ao longo das duas partes em que o livro pode ser dividido: a civilização e a natureza.

e) Já avançado em idade, Jacinto se aborrece com as serras e tenciona reviver as orgias parisienses, mas faltam-lhe, agora, saúde e riqueza.

 

2. O romance A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, publicado em 1901, é desenvolvimento de um conto chamado “Civilização”. Do romance como um todo pode afirmar-se que

a) apresenta um narrador que se recorda de uma viagem que fizera havia algum tempo ao Oriente Médio, à Terra Santa, de onde deveria trazer uma relíquia para uma tia velha, beata e rica.

b) caracteriza uma narrativa em que se analisam os mecanismos do casamento e o comportamento da pequena burguesia da cidade de Lisboa.

c) apresenta uma personagem que detesta inicialmente a vida do campo, aderindo ao desenvolvimento tecnológico da cidade, mas que ao final regressa à vida campesina e a transforma com a aplicação de seus conhecimentos técnicos e científicos.

d) revela narrativa cujo enredo envolve a vida devota da província e o celibato clerical e caracteriza a situação de decadência e alienação de Leiria, tomando-a como espelho da marginalização de todo o país com relação ao contexto europeu.

e) se desenvolve em duas linhas de ação: uma marcada por amores incestuosos; outra voltada para a análise da vida da alta burguesia lisboeta.

Comentário: Em A Cidade e as Serras, o narrador conta a vida de seu amigo, Jacinto, defensor da vida urbana hipercivilizada, repleta de tecnologia e artificialismos. Inicialmente, Jacinto acreditava que "o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado", porém ao partir para o campo, Tormes, cidade fictícia, em Portugal, ele recupera suas origens, torna-se mais compreensivo com o que antes rejeitava e integra-se à vida rural, trabalhando nos campos elevando para a vida campesina o que a sociedade urbana e a tecnologia ofereciam de melhor.

 

3. 

Já a tarde caía quando recolhemos muito lentamente. E toda essa adorável paz do céu, realmente celestial, e dos campos, onde cada folhinha conservava uma quietação contemplativa, na luz docemente desmaiada, pousando sobre as coisas com um liso e leve afago, penetrava tão profundamente Jacinto, que eu o senti, no silêncio em que caíramos, suspirar de puro alívio.

      Depois, muito gravemente:

      Tu dizes que na Natureza não há pensamento...

      Outra vez! Olha que maçada! Eu...

      Mas é por estar nela suprimido o pensamento que lhe está poupado o sofrimento! Nós, desgraçados, não podemos suprimir o pensamento, mas certamente o podemos disciplinar e impedir que ele se estonteie e se esfalfe, como na fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se realizam, aspirando a certezas que nunca se atingem!... E é o que aconselham estas colinas e estas árvores à nossa alma, que vela e se agita que viva na paz de um sonho vago e nada apeteça, nada tema, contra nada se insurja, e deixe o mundo rolar, não esperando dele senão um rumor de harmonia, que a embale e lhe favoreça o dormir dentro da mão de Deus. Hem, não te parece, Zé Fernandes?

      Talvez. Mas é necessário então viver num mosteiro, com o temperamento de S. Bruno, ou ter cento e quarenta contos de renda e o desplante de certos Jacintos...

                                    Eça de Queirós, A cidade e as serras.

Considerado no contexto de A cidade e as serras, o diálogo presente no excerto revela que, nesse romance de Eça de Queirós, o elogio da natureza e da vida rural

a) indica que o escritor, em sua última fase, abandonara o Realismo em favor do Naturalismo, privilegiando, de certo modo, a observação da natureza em detrimento da crítica social.

b) demonstra que a consciência ecológica do escritor já era desenvolvida o bastante para fazê-lo rejeitar, ao longo de toda a narrativa, as intervenções humanas no meio natural.

c) guarda aspectos conservadores, predominantemente voltados para a estabilidade social, embora o escritor mantenha, em certa medida, a prática da ironia que o caracteriza.

d) serve de pretexto para que o escritor critique, sob certos aspectos, os efeitos da revolução industrial e da urbanização acelerada que se haviam processado em Portugal nos primeiros anos do Século XIX.

e) veicula uma sátira radical da religião, embora o escritor simule conservar, até certo ponto, a veneração pela Igreja Católica que manifestara em seus primeiros romances.

 

4. O romance A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, publicado em 1901, é desenvolvimento de um conto chamado “Civilização”. Do romance como um todo pode afirmar-se que

a) apresenta um narrador que se recorda de uma viagem que fizera havia algum tempo ao Oriente Médio, à Terra Santa, de onde deveria trazer uma relíquia para uma tia velha, beata e rica.

b) caracteriza uma narrativa em que se analisam os mecanismos do casamento e o comportamento da pequena burguesia da cidade de Lisboa.

c) apresenta uma personagem que detesta inicialmente a vida do campo, aderindo ao desenvolvimento tecnológico da cidade, mas que ao final regressa à vida campesina e a transforma com a aplicação de seus conhecimentos técnicos e científicos.

d) revela narrativa cujo enredo envolve a vida devota da província e o celibato clerical e caracteriza a situação de decadência e alienação de Leiria, tomando-a como espelho da marginalização de todo o país com relação ao contexto europeu.

e) se desenvolve em duas linhas de ação: uma marcada por amores incestuosos; outra voltada para a análise da vida da alta burguesia lisboeta.

 

COMENTÁRIOS: A obra A Cidade e as Serras relata as transformações na maneira de o protagonista Jacinto encarar o mundo. Inicialmente ele se encontra inserido na modernidade, vivendo em Paris, entusiasta das novidades tecnológicas. Depois de uma crise de “fartura”, muito deprimido, reencontra o prazer de viver nas serras de Tormes, em uma vida simples que anteriormente criticava.

Essa nova fase conscientiza o protagonista dos problemas sociais, levando-o a procurar conciliar os avanços tecnológicos com o modo de vida local.

 

 

Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto

Análise da obra

Publicado inicialmente em folhetins do Jornal do Comércio entre agosto e outubro de 1911 e depois em livro em 1916, Triste Fim de Policarpo Quaresma, obra mais famosa de Lima Barreto, condensa em si muitas das características que consagraram seu autor como o melhor de seu tempo.

A obra focaliza fatos históricos e políticos ocorridos durante a fase de instalação da república, mais precisamente no governo de Floriano Peixoto (1891 - 1894). Seus ataques, sempre escachados, derramam-se para todos os lados significativos da sociedade que contempla, a Primeira República, ou seja, as primeiras décadas desse regime aqui no Brasil.

Assim, Lima Barreto encaixa-se no Pré-Modernismo (1902-22), pois, respeita códigos literários antigos (principalmente o Naturalismo, conforme anteriormente apontado), mas já apresenta uma linguagem nova, mais arejada em relação ao momento anterior.

O romance narrado em terceira pessoa, descreve a vida política do Brasil após a Proclamação da República, caricaturizando o nacionalismo ingênuo, fanatizante e xenófobo do Major Policarpo Quaresma, apavorado com a descaracterização da cultura e da sociedade brasileira, modelada em valores europeus.

Divertido e colorido no início, o livro se desdobra no sofrimento patético do major Quaresma, incompreendido e martirizado, convertido numa espécie de Dom Quixote nacional, otimista incurável, visionário, paladino da justiça, expressando na sua ingenuidade a doçura e o calor humano do homem do povo.

O romance anuncia no título o seu desfecho pouco alegre, apesar do enredo em que os efeitos cômicos estão aliados ao entusiasmo ingênuo do personagem central e ao seu inconformismo e obsessões. Quaresma é um tipo rico em manifestações inusitadas: seus requerimentos pedindo o tupi-guarani como língua oficial, seu jeito de receber chorando as visitas, suas pesquisas folclóricas; tudo procurando despertar o riso no leitor que, no final, presencia sua morte solitária e triste: “Com tal gente era melhor tê-lo deixado morrer só e heroicamente num ilhéu qualquer, mas levando para o túmulo inteiramente intacto o seu orgulho, a sua doçura, a sua personalidade moral, sem a mácula de um empenho, que diminuísse a injustiça de sua morte, que de algum modo fizesse crer aos algozes que eles tinham direito de matá-lo”.

Outro personagem que merece especial atenção é Ricardo Coração dos Outros, o seresteiro do subúrbio, que enriquece a narrativa em que se mostra a paixão pela cidade, os bairros distantes, as serenatas e os violões compondo um cenário pitoresco do Rio de Janeiro da época.

Estrutura da obra

A obra divide-se em três partes.

Primeira parte - Retrata o burocrata exemplar, patriota e nacionalista extremado, interessado pelas coisas do Brasil: a música, o folclore e o tupi-guarani. Esta parte está ligada à Cultura Brasileira, onde conhecemos a personagem e suas manias. Sabe tudo sobre a geografia do nosso país. Sua casa é repleta de livros que se refiram à nossa nação. O que come e bebe é tipicamente brasileiro. Até o seu jardim só possui plantas nativas. Chega a estudar violão – instrumento de má fama na época, pois era associado a malandros – com Ricardo Coração dos Outros, já que descobre que a modinha, estilo tipicamente brasileiro, era tocada com esse instrumento.

Duas são suas grandes ações. A primeira está em estudar o folclore do Brasil para incrementar uma festa de seu vizinho, General Albernaz com algum folguedo popular. Descobre então o Tangolomango, brincadeira que consistia na dança com dez crianças, até que um sujeito, com uma máscara, deveria pegar uma a uma sucessivamente. O problema é que Quaresma empolgou-se tanto com a brincadeira que terminou passando mal, por falta de ar, ou, como se dizia na época, acabou tendo um “tangolomango”. Por aí já se tem uma ideia da ironia do autor.

O clímax da falta de senso de ridículo do protagonista foi ter mandado à Câmara um requerimento, pedindo para que a língua oficial do Brasil deixasse de ser o Português, idioma emprestado e por isso incentivador de inúmeras polêmicas entre nossos gramáticos (seu argumento, nesse aspecto, é o de que não podemos dominar um idioma que não é nosso e que, portanto, não respeita a nossa realidade. Ideias bastante interessantes, mas apenas isso, pois é ridículo imaginar que uma língua seja mudada por decreto). No seu lugar propõe o tupi.

Resultado: vira motivo de chacota até na Imprensa. Seus colegas de trabalham aumentam as constantes ironias que jogam sobre a ele. Um chega a dizer que Quaresma estava errado ao querer impor aos outros uma língua que nem ele próprio, autor do requerimento, dominava. Ideia inverídica, tanto que o protagonista, irado, não percebe que escreve um ofício em tupi. Quando o documento chega aos superiores, a consequência é nefasta: o protagonista é internado no hospício.

Segunda parte - Mostra o Major Quaresma desiludido com as incompreensões o que o faz se retirar para o campo onde se empenha na reforma da agricultura brasileira e no combate às saúvas. Nesta parte, dedicada à Agricultura Brasileira, vemos Quaresma refugiar-se num sítio que compra, em Curuzu, e tem por intenção provar que o solo brasileiro é o mais fértil do mundo. Dedica-se, portanto, a estudar tudo o que se refere a agricultura. Mais uma vez, distancia-se, em sua perfeição, da realidade. Torna-se defeituoso.

Terceira parte - Acentua-se a sátira política. Motivado pela Revolta da Armada, Quaresma apoia Floriano Peixoto e, aos poucos, vai identificando os interesses pessoais que movem as pessoas, desnudando o tiranete grotesco em que se convertera o "Marechal de Ferro". Quaresma larga seus projetos agrícolas ao saber que estava ocorrendo a Revolta da Armada, quando marinheiros se rebelaram contra o presidente Floriano Peixoto. Na filosofia do protagonista, sua pátria só seria grande quando a autoridade fosse respeitada. Em defesa desse ideal, volta para a Capital, para alistar-se nas tropas de defesa do regime.

O interessante é notar a alienação em que a população mergulha diante de um tema tão preocupante como uma revolta. Recuperada do susto dos constantes tiroteios, parte da população chega a ver tudo como um festival, havendo até quem colecionasse as balas perdidas.

Enfim, a revolta é sufocada. Quaresma é transferido para a Ilha das Cobras, onde trabalhará como carcereiro. É então que presencia uma cena que lhe é chocante. Um juiz aparece por lá e distribui (esse termo é o mais adequado mesmo) as condenações aleatoriamente, sem julgamento ou qualquer outro tipo de análise. Indignado, pois acreditava que sua pátria, para ser perfeita, tem de estar sustentada em fortes ideais de justiça, escreve uma carta para o presidente, pedindo a reparação de tal erro.

Infelizmente, o herói não foi interpretado adequadamente, o que revela uma certa miopia dos governantes. Por causa de tal pedido, é preso e condenado à morte, pois foi visto como uma traição. Há nesse ponto uma ironia, pois justo o único personagem que se preocupou com o seu país foi considerado traidor, enquanto outros, que se aproveitaram no conflito para conseguir vantagens políticas, como Armando Borges, Genelício e Bustamante, saíram-se vitoriosos.

No final, tal qual Dom Quixote, Quaresma acorda, recobra a razão. Percebe que a pátria, por que sempre lutara, era uma ilusão, nunca existira. Num momento pungente, tocante, descobre que passara toda a sua vida numa inutilidade.

Em Triste Fim de Policarpo Quaresma, na configuração dos elementos da narrativa, notamos a presença predominante da ironia e as impertinências contidas na figura central do romance, Quaresma, alegando que o tupi, por ser a língua nativa brasileira proporcionaria melhor adaptação ao nosso aparelho fonador. Além disso, segundo ele, os portugueses são os donos da língua e, para alterá-la teríamos de pedir licença a eles.

O narrador é solidário com sua personagem pois não deixa de criticar os que zombam de Quaresma. No livro, encontramos ora um Quaresma, entusiasmado, apaixonado pelo Brasil, ora um Quaresma desiludido, amargo, diante da ingratidão do país para com seus bons objetivos. Nesse ponto, o que vemos é um personagem condenado à solidão, já que seus ideais batem de frente com os interesses políticos e com o capital estrangeiro.

Desse modo, temos o personagem central vivendo três momentos na obra: valorizando as coisas da terra – a história, a geografia, a literatura, o folclore; no sítio do sossego a frustrada busca de uma solução para o problema agrário, o que faz o romance se vestir de uma profunda atualidade; finalmente, o envolvimento na Revolta da Armada, o que acaba lhe custando a vida.

Enredo

O funcionário público Policarpo Quaresma, nacionalista e patriota extremado, é conhecido por todos como major Quaresma, no Arsenal de Guerra, onde exerce a função de subsecretário. Sem muitos amigos, vive isolado com sua irmã Dona Adelaide, mantendo os mesmos hábitos há trinta anos. Seu fanatismo patriótico se reflete nos autores nacionais de sua vasta biblioteca e no modo de ver o Brasil. Para ele, tudo do país é superior, chegando até mesmo a "amputar alguns quilômetros ao Nilo" apenas para destacar a grandiosidade do Amazonas. Por isso, em casa ou na repartição, é sempre incompreendido.

Esse patriotismo leva-o a valorizar o violão, instrumento marginalizado na época, visto como sinônimo de malandragem. Atribuindo-lhe valores nacionais, decide aprender a tocá-lo com o professor Ricardo Coração dos Outros. Em busca de modinhas do folclore brasileiro, para a festa do general Albernaz, seu vizinho, lê tudo sobre o assunto, descobrindo, com grande decepção, que um bom número de nossas tradições e canções vinha do estrangeiro. Sem desanimar, decide estudar algo tipicamente nacional: os costumes tupinambás. Alguns dias depois, o compadre, Vicente Coleoni, e a afilhada, Dona Olga, são recebidos no melhor estilo Tupinambá: com choros, berros e descabelamentos. Abandonando o violão, o major volta-se para o maracá e a inúbia, instrumentos indígenas tipicamente nacionais.

Ainda nessa esteira nacionalista, propõe, em documento enviado ao Congresso Nacional, a substituição do português pelo tupi-guarani, a verdadeira língua do Brasil. Por isso, torna-se objeto de ridicularizarão, escárnio e ironia. Um ofício em tupi, enviado ao Ministro da Guerra, por engano, leva-o à suspensão e como suas manias sugerem um claro desvio comportamental, é aposentado por invalidez, depois de passar alguns meses no hospício.

Após recuperar-se da insanidade, Quaresma deixa a casa de saúde e compra o Sossego, um sítio no interior do Rio de Janeiro; está decidido a trabalhar na terra. Com Adelaide e o preto Anastácio, muda-se para o campo. A ideia de tirar da fértil terra brasileira seu sustento e felicidade anima-o. Adquire vários instrumentos e livros sobre agricultura e logo aprende a manejar a enxada. Orgulhoso da terra brasileira que, de tão boa, dispensa adubos, recebe a visita de Ricardo Coração dos Outros e da afilhada Olga, que não vê todo o progresso no campo, alardeado pelo padrinho. Nota, sim, muita pobreza e desânimo naquela gente simples.

Depois de algum tempo, o projeto agrícola de Quaresma cai por terra, derrotado por três inimigos terríveis. Primeiro, o clientelismo hipócrita dos políticos. Como Policarpo não quis compactuar com uma fraude da política local, passa a ser multado indevidamente. O segundo, foi a deficiente estrutura agrária brasileira que lhe impede de vender uma boa safra, sem tomar prejuízo. O terceiro, foi a voracidade dos imbatíveis exércitos de saúvas, que, ferozmente, devoravam sua lavoura e reservas de milho e feijão. Desanimado, estende sua dor à pobre população rural, lamentando o abandono de terras improdutivas e a falta de solidariedade do governo, protetor dos grandes latifundiários do café. Para ele, era necessária uma nova administração.

A Revolta da Armada - insurreição dos marinheiros da esquadra contra o continuísmo florianista - faz com que Quaresma abandone a batalha campestre e, como bom patriota, siga para o Rio de Janeiro. Alistando-se na frente de combate em defesa do Marechal Floriano, torna-se comandante de um destacamento, onde estuda artilharia, balística, mecânica.

Durante a visita de Floriano Peixoto ao quartel, que já o conhecia do arsenal, Policarpo fica sabendo que o marechal havia lido seu "projeto agrícola" para a nação. Diante do entusiasmo e observações oníricas do comandante, o Presidente simplesmente responde: "Você Quaresma é um visionário".

Após quatro meses de revolta, a Armada ainda resiste bravamente. Diante da indiferença de Floriano para com seu "projeto", Quaresma questiona-se se vale a pena deixar o sossego de casa e se arriscar, ou até morrer nas trincheiras por esse homem. Mas continua lutando e acaba ferido. Enquanto isso, sozinha, a irmã Adelaide pouco pode fazer pelo sítio do Sossego, que já demonstra sinais de completo abandono. Em uma carta à Adelaide, descreve-lhe as batalhas e fala de seu ferimento. Contudo, Quaresma se restabelece e, ao fim da revolta, que dura sete meses, é designado carcereiro da Ilha das Enxadas, prisão dos marinheiros insurgentes.

Uma madrugada é visitado por um emissário do governo que, aleatoriamente, escolhe doze prisioneiros que são levados pela escolta para fuzilamento. Indignado, escreve a Floriano, denunciando esse tipo de atrocidade cometida pelo governo. Acaba sendo preso como traidor e conduzido à Ilha das Cobras. Apesar de tanto empenho e fidelidade, Quaresma é condenado à morte. Preocupado com sua situação, Ricardo busca auxílio nas repartições e com amigos do próprio Quaresma, que nada fazem, pois temem por seus empregos. Mesmo contrariando a vontade e ambição do marido, sua afilhada, Olga, tenta ajudá-lo, buscando o apoio de Floriano, mas nada consegue. A morte será o triste fim de Policarpo Quaresma.

 

Questões 

1. Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, é

a) a narrativa da vida e morte de um funcionário humilde conformado com a realidade social do seu tempo.

b) uma autobiografia em que a personagem-título expõe sua insatisfação com relação a burocracia carioca.

c) o relato das aventuras de um nacionalista ingênuo e fanático que lidera um grupo de oposição no início da República.

d) um livro de memórias em que o personagem-título, através de um artifício narrativo, conta as atribulações de sua vida até a hora da morte.

e) a história de um nacionalista fanático que, quixotescamente, tenta resolver sozinho os males sociais de seu tempo.

 

2. Da personagem que dá título ao romance Triste Fim de Policarpo Quaresma, podemos afirmar que

a) foi um nacionalista extremado, mas nunca estudou com afinco as coisas brasileiras.

b) perpetrou seu suicídio, porque se sentia decepcionado com a realidade brasileira.

c) defendeu os valores nacionais, brigou por eles a vida toda e foi condenado à morte injustamente por valores que defendia.

d) foi considerado traidor da pátria, porque participou da conspiração contra Floriano Peixoto.

e) era um louco e, por isso, não foi levado a sério pelas pessoas que o cercavam.

 

3. No romance Triste Fim de Policarpo Quaresma, o nacionalismo exaltado e delirante da personagem principal motiva seu engajamento em três diferentes projetos, que objetivam “reformar” o país. Esses projetos visam, sucessivamente, aos seguintes setores da vida nacional:

a) escolar, agrícola e militar;

b) linguístico, industrial e militar;

c) cultural, agrícola e político;

d) linguístico, político e militar;

e) cultura, industrial e político.

 

4. Associe as obras pré-modernistas (primeira coluna) aos respectivos fragmentos a elas pertencentes (segunda coluna).

I. Triste Fim de Policarpo Quaresma (Lima Barreto) 

II. Os Sertões (Euclides da Cunha)

III. Lendas do Sul (Simões Lopes Neto)

( ) “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. ”

( ) “Foi assim e por isso que os homens, quando pela primeira vez viram a boiguaçu tão demudada, não a conheceram mais. Não conheceram e julgando que era outra, muito outra, chamam-na desde então de boitatá cobra de fogo, boitatá, a boitatá! ”

( ) “Desde moço, aí pelos vinte anos, o amor da Pátria tomou-o todo inteiro. (...) estudou a Pátria, nas suas riquezas naturais, na sua história, na sua geografia, na sua literatura e na sua política. ”

A sequência correta, de cima para baixo, na segunda coluna, é

a) II – III – I 

b) III – II – I 

c) I – II – III 

d) II – I – III 

e) I – III – II

 

5.

TEXTO I

CANÇÃO DO EXÍLIO

Minha terra tem palmeiras, 

Onde canta o sabiá; 

As aves que aqui gorjeiam, 

Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas, 

Nossas várzeas têm mais flores, 

Nossos bosques têm mais vida, 

Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite, 

Mais prazer encontro eu lá; 

Minha terra tem palmeiras, 

Onde canta o sabiá;

Minha terra tem primores, 

Que tais não encontro eu cá; 

Em cismar – sozinho –, à noite –

Mais prazer encontro eu lá; 

Minha terra tem palmeiras, 

Onde canta o sabiá.

Não permita Deus que eu morra, 

Sem que eu volte para lá; 

Sem que desfrute os primores

Que não encontro por cá; 

Sem qu'inda aviste as palmeiras

Onde canta o sabiá.

DIAS, Antônio Gonçalves. Poesia completa e prosa escolhida. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1959, p.103

 

TEXTO II

Errava quem quisesse encontrar nele qualquer regionalismo; Quaresma era antes de tudo brasileiro. Não tinha predileção por esta ou aquela parte de seu país, tanto assim que aquilo que o fazia vibrar de paixão não eram só os pampas do Sul com seu gado, não era o café de São Paulo, não eram o ouro e os diamantes de Minas, não era a beleza da Guanabara, não era a altura da Paulo Afonso, não era o estro de Gonçalves Dias ou o ímpeto de Andrade Neves – era tudo isso junto, fundido, reunido, sob a bandeira estrelada do Cruzeiro. 

Logo aos dezoito anos quis fazer-se militar; mas a junta de saúde julgou-o incapaz. Desgostou-se, sofreu, mas não maldisse a Pátria. O ministério era liberal, ele se fez conservador e continuou mais do que nunca a amar a "terra que o viu nascer." Impossibilitado de evoluir-se sob os dourados do Exército, procurou a administração e dos seus ramos escolheu o militar. 

.................................................................................. 

Durante os lazeres burocráticos, estudou, mas estudou a Pátria, nas suas riquezas naturais, na sua história, na sua geografia, na sua literatura e na sua política. Quaresma sabia as espécies de minerais, vegetais e animais, que o Brasil continha; sabia o valor do ouro, dos diamantes exportados por Minas, as guerras holandesas, as batalhas do Paraguai, as nascentes e o curso de todos os rios. Defendia com azedume e paixão a proeminência do Amazonas sobre todos os demais rios do mundo. Para isso ia até ao crime de amputar alguns quilômetros ao Nilo e era com este rival do "seu" rio que ele mais implicava. Ai de quem o citasse na sua frente! Em geral, calmo e delicado, o major ficava agitado e malcriado, quando se discutia a extensão do Amazonas em face da do Nilo. 

BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. In: Três Romances. Rio de Janeiro: Garnier, 1990, p. 17-18

 

A valorização do nacional, expressa no poema de Gonçalves Dias (texto I) e nas ideias de Quaresma (texto II), é uma característica presente nos seguintes períodos literários:

a) Simbolismo e Modernismo 

b) Arcadismo e Romantismo 

c) Realismo e Simbolismo 

d) Romantismo e Modernismo 

e) Barroco e Arcadismo

 

6. No final do romance Triste fim de Policarpo Quaresma, o personagem Quaresma adota uma postura crítica em relação ao nacionalismo que ele adotara no texto II (questão anterior).

Assinale a alternativa em que esta postura crítica aparece:

a) "Nada de ambições políticas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou melhor: o que o patriotismo o fez pensar, foi um conhecimento inteiro do Brasil, (...) para depois então apontar os remédios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa." 

b) "E o que não deixara de ver, de gozar, fruir, na sua vida? Tudo. Não brincara, não pandegara, não amara – todo esse lado da existência que parece fugir um pouco à sua tristeza necessária, ele não vira, ele não provara, ele não experimentara." 

c) "É preconceito supor-se que todo esse lado da existência que parece fugir um pouco à sua tristeza necessária, ele não vira, ele não provara, ele não experimentara." 

d) "A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio de seu gabinete. Nem a física, nem a moral, nem a intelectual, nem a política que julgava existir, havia." 

e) "Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos, o amor da pátria tomou-o todo inteiro."

 

7. O autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma é um pré-modernista e aborda em seus romances a vida simples dos pobres e dos mestiços. Reveste seu texto com a linguagem descontraída dos menos privilegiados socialmente.

O autor descrito acima é:

a) Euclides da Cunha 

b) Graça Aranha 

c) Manuel Bandeira 

d) Lima Barreto 

e) Graciliano Ramos

 

8. Associe corretamente as colunas:

1. O Moço Loiro ( ) ...“Raquel tinha a cabeça inclinada para baixo e os olhos fitos no fundo do batel; cedendo a inexplicáveis movimentos de desassossego, suas mãos, que se achavam unidas uma à outra sobre o colo, apertavam-se".(...) "Dir-se-ia que Raquel tinha n’alma um pensamento doloroso. (...) ... Honorina, ao contrário, estava um pouco voltada para fora.”

2. Senhora ( ) ...“Aurélia reuniu o cheque e os maços de dinheiro que estavam sobre a mesa.

Este dinheiro é abençoado. Diz o senhor que ele o regenerou, e acaba de o restituir muito a propósito para realizar um pensamento de caridade e servir a outra regeneração.”

3. Dom Casmurro ( ) ... “Olga tocou no velho piano de Dona Adelaide; e, antes das onze horas, estavam todos recolhidos. Quaresma chegou a seu quarto, despiu-se, enfiou a camisa de dormir e, deitado, pôs-se a ler um velho elogio das riquezas e opulências do Brasil.”

4. Triste fim de Policarpo Quaresma ( ) ...“Capitu estava ao pé do morro fronteiro, voltada para ele, riscando com um prego. O rumor da porta fê-la olhar para trás; ao dar comigo, encostou-se no muro, como se quisesse esconder alguma cousa. Caminhei para ela; naturalmente levava o gesto mudado, porque ela veio a mim, e perguntou-me inquieta: - que é que você tem? (...)”

5. Os Sertões ( ) ... “O povoado novo surgia, dentro de algumas, já feito ruínas. Nascia velho. Visto de longe, desdobrado pelas câmeras, atrelando as canhadas, cobrindo área enorme, truncado nas quebradas, revolto nos pendores - tinha o aspecto perfeito de uma cidade cujo solo houvesse sido sacudido e brutalmente dobrado por um terremoto.”

 

A sequência correta é:

a) 1 - 3 - 4 - 5 - 2.

b) 1 - 4 - 3 - 2 - 5.

c) 4 - 3 - 2 - 1 - 5.

d) 1 - 2 - 3 - 4 - 5.

e) 1 - 2 - 4 - 3 - 5.

 

9. Considere as seguintes associações:

I - José de Alencar - Iracema - indianismo - Romantismo - narrativa lírica

II - Raul Pompéia - O Ateneu - memorialismo - Modernismo - crônica biográfica

III - Lima Barreto - Triste fim de Policarpo Quaresma - nacionalismo - Realismo - tragédia

Assinale:

a) se apenas I estiver correta.

b) se nenhuma estiver correta.

c) se apenas II e III estiverem corretas.

d) se apenas I e II estiverem corretas.

e) se todas estiverem corretas.

 

10. Leia e compare os textos seguintes.

Estou no hospício ou, melhor, em várias dependências dele, desde o dia 25 do mês passado. (...) Eu sou dado ao maravilhoso, ao fantástico, ao hipersensível; nunca, por mais que quisesse, pude ter uma concepção mecânica, rígida do Universo e de nós mesmos. No último, no fim do homem e do mundo, há mistério e eu creio nele. (...) O que há em mim, meu Deus? Loucura? Quem sabe lá? (...) Que dizer da loucura? Mergulhado no meio de quase duas dezenas de loucos, não se tem absolutamente uma impressão geral dela. (Lima Barreto. Diário do hospício)

E essa mudança não começa, não se sente quando começa e quase nunca acaba. Com o seu padrinho, como fora? A princípio, aquele requerimento... mas que era aquilo? Um capricho, uma fantasia, coisa sem importância, uma ideia de velho sem consequência. Depois, aquele ofício? Não tinha importância, uma simples distração, coisa que acontece a cada passo... E enfim? A loucura declarada, a torva e irônica loucura que nos tira a nossa alma e põe uma outra, que nos rebaixa... (Lima Barreto. Triste fim de Policarpo Quaresma)

Assinale a alternativa correta:

a) Sem a experiência pessoal de Lima Barreto sobre a loucura, o autor não teria elementos suficientes para compor sua personagem nem para refletir sobre o tema.

b) Em ambos os textos, os narradores creem que o universo e o homem estão sujeitos a uma ordem suprassensível, misteriosa, que impede a demarcação exata da lucidez e da loucura.

c) Seguindo padrões estabelecidos, a personagem Quaresma pauta-se por uma conduta racional e objetiva, comportamento esse positivista, que a leva à loucura.

d) Ainda que não saiba definir a loucura, Lima Barreto faz uma exaltação dela, por meio de sua vida e da personagem Quaresma.

 

11. O autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma é um pré-modernista e aborda em seus romances a vida simples dos pobres e dos mestiços. Reveste seu texto com a linguagem descontraída dos menos privilegiados socialmente.

O autor descrito acima é:

a) Euclides da Cunha 

b) Graça Aranha 

c) Manuel Bandeira 

d) Lima Barreto 

e) Graciliano Ramos

 

12. Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, é

a) a narrativa da vida e morte de um funcionário humilde conformado com a realidade social do seu tempo.

b) uma autobiografia em que a personagem-título expõe sua insatisfação com relação a burocracia carioca.

c) o relato das aventuras de um nacionalista ingênuo e fanático que lidera um grupo de oposição no início da República.

d) um livro de memórias em que o personagem-título, através de um artifício narrativo, conta as atribulações de sua vida até a hora da morte.

e) a história de um nacionalista fanático que, quixotescamente, tenta resolver sozinho os males sociais de seu tempo.

 

13. Da personagem que dá título ao romance Triste Fim de Policarpo Quaresma, podemos afirmar que

a) foi um nacionalista extremado, mas nunca estudou com afinco as coisas brasileiras.

b) perpetrou seu suicídio, porque se sentia decepcionado com a realidade brasileira.

c) defendeu os valores nacionais, brigou por eles a vida toda e foi condenado à morte injustamente por valores que defendia.

d) foi considerado traidor da pátria, porque participou da conspiração contra Floriano Peixoto.

e) era um louco e, por isso, não foi levado a sério pelas pessoas que o cercavam.

 

14. (PUC-SP) "Iria morrer, quem sabe naquela noite mesmo? E que tinha ele feito de sua vida? Nada. Levara toda ela atrás da miragem de estudar a pátria, por amá-la e querê-la muito bem, no intuito de contribuir para a sua felicidade e prosperidade. Gastara a sua mocidade nisso, a sua virilidade também; e, agora que estava na velhice, como ela o recompensava, como ela a premiava, como ela o condenava? Matando-o. E o que não deixara de ver, de gozar, de fruir, na sua vida? Tudo. Não brincara, não pandegara, não amara - todo esse lado da existência que parece fugir um pouco à sua tristeza necessária, ele não vira, ele não provara, ele não experimentá-la. Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois se fossem... Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada... O importante é que ele tivesse sido feliz. Foi? Não. Lembrou-se das suas causas de tupi, do folclore, das suas tentativas agrícolas... Restava disto tudo em sua alma uma sofisticação? Nenhuma! Nenhuma!" (Lima Barreto)

O trecho acima pertence ao romance Triste Fim de Policarpo Quaresma. Da personagem que dá título ao romance, podemos afirmar que:

a) foi um nacionalista extremado, mas nunca estudou com afinco as coisas brasileiras.

b) perpetrou seu suicídio, porque se sentia decepcionado com a realidade brasileira.

c) defendeu os valores nacionais, brigou por eles a vida toda e foi condenado à morte justamente pelos valores que defendia.

d) foi considerado traidor da pátria, porque ele participou da conspiração contra Floriano Peixoto.

e) era um louco e, por isso, não foi levado a sério pelas pessoas que o cercavam.

 

15. Triste fim de Policarpo Quaresma, romance de Lima Barreto publicado em 1911, trata do drama de um velho aposentado que se propõe a salvar o Brasil de suas mazelas sociais. Neste romance, a figura feminina

a) vive uma relação amorosa extremamente sensual com Policarpo.

b) representa o ideal de mulher com que sonha Policarpo.

c) é a personagem que, como amiga de Policarpo, ao término, melhor entende a dinâmica da sociedade.

d) idealiza a vida brasileira e acompanha Policarpo em suas ideias de transformar o País.

e) cria empecilhos, como vilã, para que Policarpo realize seu sonho.

 

 

Big Jato, de Xico Sá

Xico Sá traz memória e ficção a romance

'Big Jato' remonta a histórias familiares do jornalista e colunista da Folha, principalmente a vida no sertão nordestino

"Vivi o conflito entre o jornalismo e a literatura a vida inteira", diz o cronista sobre suas paixões

Cadão Volpato, especial para a Folha

 

Começou com a imagem de um velho rabugento e a lembrança dos barulhos ouvidos no vale do Cariri, no sul do Ceará, onde fica o Crato, cidade natal do escritor e colunista da Folha Xico Sá.

A partir daí foram anos ruminando esses indícios, que se transformaram em contos delirantes e foram mostrados aos amigos escritores Joca Reiners Terron e Ronaldo Bressane. Os dois insistiram para que Xico transformasse aquilo tudo em romance.

"Escreve logo um livro para valer", diziam eles. E foi o que Xico fez. O resultado é uma novela que mistura memória e ficção para falar de um menino, de um velho, de um beatlemaníaco e de um caminhão limpa-fossa, de cujo nome saiu o título, Big Jato.

Das conversas do menino com todo mundo e de suas descobertas, nasceu uma obra original, um estranho e pequeno romance de formação, delicado na carpintaria, regional, carregado de uma prosa que não recusa a poesia e, além de tudo, entrega ao leitor, inteira, a alma do cronista único, engraçado e cheio de estilo que Xico Sá tem sido nos últimos anos.

"As coisas vieram rápidas, num fluxo", diz ele. "Visitava a casa da minha família e reconstruía a história". Não é propriamente a história da família de Xico, mas inspira-se diretamente nela, monta e remonta personagens que têm um pouco dos tios e tias, rouba outro tanto do pai, da mãe e dos irmãos.

 

Personagens

O tio beatlemaníaco e preguiçoso que apresenta os Beatles ao menino existiu, só que era outro parente maluco. O limpa-fossas Big Jato, que pertenceu a outro tio, também. Peixe de Pedra, a localidade inventada, é uma junção de diversas cidades do vale do Cariri, às quais Xico se diz ligado sentimentalmente.

Cenas de grande beleza evocam fósseis e pterodáctilos, bem como o corpo e os modos das mulheres.

Mas a escatologia está em toda parte. "Meu pai foi caminhoneiro", explica Xico. "Mas sem a merda."

Os assuntos favoritos dele, espalhados pelo livro, ganham uma densidade que não alcançam enquanto crônica. O que Xico faz em "Big Jato" é a literatura que procurava desde que começou na profissão. "Vivi o conflito entre o jornalismo e a literatura a vida inteira", diz. "Tentei salvar o escritor possível dentro de uma Redação."

Não custa lembrar: ele foi o repórter que descobriu o paradeiro de PC Farias, um dos grandes furos do jornalismo brasileiro nos anos 1990.

Primeiro romance sério de Xico -"Caballeros Solitários rumo ao Sol Poente" (2007) fora uma brincadeira escrita em portunhol selvagem, a língua que ele e amigos inventaram e que acabou resultando num encontro internacional em Assunção, no Paraguai- "Big Jato" contradiz o que ele chama de "sonho equivocado de ser escritor".

Além disso, demonstra a ligação sentimental que Xico tem não só com o sertão mas também com o Recife, cidade onde começou a escrever, e o fascínio que "Vidas Secas", de Graciliano Ramos, exerceu sobre o jovem matuto.

Kurt Vonnegut, William Saroyan e principalmente o Juan Rulfo de "Pedro Páramo" são as pedras de toque do livro. Mas o olhar terno e incisivo do cronista que tem Nelson Rodrigues como ídolo paira sobre tudo.

 Cadão Volpato é músico, jornalista e escritor, autor de "Relógio Sem Sol" (ed. Iluminuras), entre outros

 

BIG JATO

AUTOR Xico Sá

EDITORA Companhia das Letras

QUANTO R$ 33 (184 págs.)

“Só deixo o meu Cariri/no último pau de arara”, já dizia aquela música do Angel Venâncio imortalizada nas vozes de Luiz Gonzaga, Fagner e Zé Ramalho. Esse também era o sentimento do personagem principal de “Big Jato”, romance de estreia do cronista e jornalista Xico Sá. Ele gosta de onde mora, dos professores que tem na escola, dos pais, de máquinas de escrever e, mais que tudo, ele gosta do caminhão limpador de fossas que o pai dirige – o Big Jato.

Na boleia do velho, ele roda a região do Crato ouvindo Beatles na rádio e recolhendo o que de pior sai do corpo humano em uma época em que saneamento básico era ficção nos cantões do Brasil. A dupla leva os dejetos para serem aterrados onde ninguém vai precisar vê-los ou sentir seu cheiro. O que é motivo de piada para os colegas de escola (“tudo o que ele tem vem da merda”) é razão de orgulho do menino: o pai é um empresário bem sucedido e que, ainda por cima, presta um serviço à humanidade.

O Ceará dos anos 70 ganha contornos cômicos, como era de se esperar de Xico Sá. Autor de uma das mais acompanhadas colunas do jornal Folha de S. Paulo e dono de uma veia entre o humor semântico e o doce cafajeste, o cronista cria os seus coloridos e vivos diálogos entrecortados pela música do quarteto de Liverpool e pela esperança de que um dia a banda volte a existir e que a menina bonita da escola olhe para o menino narrador.

 

As memórias e delírios de Xico Sá em Big Jato

Livro traz narrativa picaresca que se passa no Sertão do Cariri nos anos 1970

Diogo Guedes

No prefácio de Big Jato, Xico Sá confessa a relação íntima da narrativa com suas memórias ao mesmo tempo em que provoca uma dúvida no leitor: aquilo ali é sim fruto das suas experiências, mas organizadas (ou desorganizadas) para fins literários. “Estiquei ao máximo a corda da verossimilhança. Quase no pescoço”, afirma, revelando e escondendo os limites dessa narrativa proustiana.

No livro, sua estreia como romancista, estão as suas lembranças e distorções do Cariri dos anos 1970, pano de fundo da história picaresca de Big Jato. O personagem principal da obra, o pai do narrador, chamado apenas de “o velho”, é um homem que vive com orgulho dos que os outros desprezam: os excrementos. Empreendedor, limpa com seu caminhão velho as fossas das cidades próximas.

É o completo oposto do seu irmão, um “veado, maconheiro e vagabundo”, homem que se gaba de não precisar trabalhar de sol a sol. “O trabalho danifica o homem”, diz o fã dos Beatles, trilha sonora onipresente na obra.

Dividido em capítulos curtos, o romance funciona a partir de tensão entre a influência dos dois personagens no menino, alter ego de Xico Sá. Aqui, o escritor se mostra um prosador habilidoso, mantendo no romance as tiradas tão famosas nas suas crônicas: diz, por exemplo, que a “primeira mulher é aquela que te humilha”.

A narrativa – que deve virar filme pelas mãos de Cláudio Assis – termina por se equilibrar entre memórias e invenções numa nostalgia bem-humorada. No fim, como o próprio narrador sintetiza, trata-se da história de uma despedida inevitável: “Viver é fugir do claro para o escuro e do escuro para o claro”.

Leia aqui um trecho de Big Jato.

Mas a vida não é fácil para quem cresce. Aos 16 anos e entre a adolescência e a difícil tarefa de manter o legado do pai, o personagem principal de Xico se vê entre as expectativas da mãe, uma paixão não correspondida, a perda da virgindade e escolha de um caminho que leva às estradas do Big Jato ou mais longe.

As agruras de lidar com essa perda da inocência ficam claras especialmente nos primeiros capítulos do romance, quando o menino tenta se convencer, repetidamente (talvez o único ponto negativo), da nobreza de seu trabalho fedido ao lado do pai e compreender o que nos une como espécie, o que nos separa como pessoas – e que até mesmo Roberto Carlos tem lá as suas necessidades fisiológicas (algo que, segundo o Velho, é só o que o Rei faz em seus discos desde 1971).

“Big Jato” é uma história sobre o difícil ato de crescer, a perda da inocência e as dores de amadurecer – algo com o que qualquer leitor pode se relacionar. Somente a voz única de Xico Sá poderia deixar de lado os estereótipos de uma terra esquecida e trazer com bom humor as memórias de um tempo em que era um garoto que amava os Beatles, os Rolling Stones, as musas do cinema americano e sonhar com a liberdade na boleia de um caminhão.

 

 

O ferrolho do Abismo, de Geraldo Urano

Geraldo Urano nasceu em Crato, no dia 10 de junho de 1953. Na década de 1970 participou dos Festivais Regionais da Canção, onde se celebrizou pelas suas performances vanguardistas, rompendo com o padrão tradicional de participação nesse tipo de evento. Atuou também no grupo de arte Por exemplo, formado por “jovens da pequena classe urbana local” (CARIRY, 2010, p. 107) que desenvolvia atividades artísticas e culturais. O grupo publicava uma revista mimeografada com textos literários e desenhos, onde Geraldo Urano estreou como poeta.

Fermentada no bojo do fenômeno que ficou conhecido Geração Mimeógrafo[1], a produção de Geraldo, apesar de intensa, teve publicação escassa. Foram apenas dois livros solos[2], um em parceria[3], um livro que reuniu pretensamente suas “poesias completas”[4], participação em uma antologia[5], poemas e textos publicados em jornais, revistas e fanzines[6] e um longo poema publicado no formato de folheto de cordel[7], além de letras de música ou poemas musicados em parceria com compositores caririenses e gravados em disco[8].

Nas suas características mais marcantes, como a liberdade, a solidariedade, a universalidade e, ao mesmo tempo, a reverência para com as leis naturais e a irreverência para com as leis sociais, é de Rosemberg Cariry, companheiro nos movimentos artísticos caririenses nas décadas de 1970 e 1980, uma definição aproximada da poesia de Geraldo Urano:

“A partir do Cariri, terra marcada pelas unhas da história, a poética de Geraldo Urano criou asas, rompeu cercas, ganhou o mundo, ensaiou o seu projeto de universalidade. [...] na beleza dos seus versos estão os países, as cores dos povos, a semeadura do sonho, a busca da paz, a canção de amor. A poesia de Geraldo não tem fronteiras, fala do mundo como quem fala do quintal da sua casa e do quintal da sua casa como quem fala do mundo. Em tudo uma marca inconfundível: o verso novo e inovador, a musicalidade das palavras que se entrelaçam como trepadeiras que escalam muros e desabrocham a flor nos cabelos das ruas; a ironia cortante que desaloja a ferrugem; a críticas audaz aos inimigos da vida; o imenso amor que o liga à natureza. Sobretudo, seu canto de esperança no homem, sua fé na liberdade e no advento de uma sociedade de coletiva felicidade” (CARIRY, 2015, pp. 14-15).

Do Cariri para o mundo. Uma frase que bem poderia ser uma paráfrase do conselho de autoria atribuída ao escritor russo Leon Tolstói - “se queres ser universal, canta primeiro a tua aldeia”. No entanto, confirmando uma característica que é marcante na poética geraldiana - a sua desvinculação a rótulos e a esquemas pré-definidos, Geraldo subverteu essa máxima. Apesar de ter seguido à risca a filosofia dos poetas beats e ter se tornado um andarilho por um período de sua juventude[9], praticamente viveu na cidade em que nasceu. Foi do regional ao universal e voltou ao regional sem nunca, a rigor, ficar preso a fronteiras, geográficas ou imaginária, ou mesmo a convenções de territórios livres. Seu endereço, portanto, nunca foi geográfico, com CEP ou comprovante de residência, conforme ele revelou em um poema da sua safra inicial:

me procure em seu coração

esse

é o endereço mais próximo

e onde

você pode me encontrar

na sua cidade eu apenas nasci

e o mundo

tem muitas cidades

como o céu muitas estrelas

e como o vento estou sempre

em movimento

posso estar agora

no planalto central e logo mais

em Detroit

por isso me procure em seu coração

onde é certo você me encontrar

(URANO, 1984, p. 49)

 

Foi deste seu cordial endereço que Geraldo alçou voos imaginários para cantar o mundo e idealizar sua própria Pasárgada, que ele batizou de Craterdã. Afinal, diabeísso? Uma possível resposta que começa interrogando: “Craterdã? (Assim mesmo, com til), Cratuniversal. Crato cósmica, interestelar, intergaláctica, gêmea de Amsterdã ou Amsterdam, semente plantada e fosforescendo no seio da Mãe Gaya” (REJANE, 2015, p. 7). O neologismo apareceu, pela primeira vez, como título de um poema em prosa[10], mas que acabou virando uma espécie de representação imaginária que a “rapaziada” underground acabou adotando e que foi resgatada recentemente, conforme a poeta Cláudia Rejane registrou no prefácio de O ferrolho do abismo:

“Por esses mesmos tempos, andavam pelo vale Raquel Arrais, Constance Pinheiro e Fernanda Loss, nascidas na década de 80, quando Craterdã fervilhava ao som da nossa contracultura, com guitarra elétrica, bateria, pífano e zabumba. As moças entraram em contato com o assombro, a agonia, o delírio e o encanto das uraniversalidades e, reunidas num estúdio sugestivamente chamado de Caravelas, embarcaram na viagem interestelar, geraldeando em 2013 o projeto Uma noite em Craterdam, no intuito de trazer vaga-lumes e outras luminosidades uranianas a público. O projeto foi abraçado pelo CCBNB/Juazeiro do Norte[11] , inserido no VII Rock Cordel e realizado de 15 a 20 de janeiro de 2013” (REJANE, Idem).

O reconhecimento da nova geração, nascida quando Geraldo Urano já estava impedido, por razões de saúde, de manter a sua efervescente “agenda” artística, é uma prova do longo alcance e da perenidade de sua obra. Isso foi possível por conta do exercício profundo e radical pelo qual se revestiu essa produção, fortemente marcada pela conjuntura que influenciou sua formação, tanto artística como existencial, em um sentido bem mais amplo.

As primeiras produções poéticas conhecidas de Geraldo datam do início dos anos 1970, mas sua metamorfose iniciou-se já no final da década anterior, nos ‘loucos’ e revolucionários anos 1960. Por essa época, o Cariri passava por uma onda de intensa e célere transformação, resultado da confluência de forças que operava tanto no plano interno como externo. Desenvolvimento com modernização é a chave para compreender aquelas mudanças que se efetivavam no plano regional, mas com forte influência da conjuntura global.

As utopias juvenis cultuadas em várias partes do planeta naquela época de efervescência, participação e experimentação convergiam em torno da construção holística da ‘Era de Aquarius’, da qual os artistas caririenses, em especial Geraldo Urano, eram entusiastas apologistas.

Pelas temáticas, paisagens e fatos narrados em seus escritos, tem-se a impressão de que Geraldo compensou a sua breve educação formal nas leituras dos livros, além das informações que absorvia por diversos meios, um processo certamente facilitado pela presença da indústria cultural cada vez mais intensa a partir dos anos 1960. Na sua ânsia por novidades, a nova geração local buscou os canais de suas transmissões, não só os meios de comunicação de massa, como televisão, rádio e a grande imprensa, mas outras mídias alternativas, geralmente bens culturais disponíveis, tais como livros e discos que circulavam de mão em mão entre os amigos e filmes não comerciais projetados em cineclubes.

Não se queria somente mudar o mundo, mas principalmente torná-lo melhor. E em um contexto conjunturalmente adverso, por conta da ditadura em vigor, a juventude caririense buscava compatibilizar o prazer de viver com a necessidade de resistir ao ainda enrijecido establishment nacional, com armas e estratégias que não fossem pinçadas apenas de um manual de guerrilha. A arte foi uma das alternativas de participação de um grupo de jovens, pessoas egressas, na sua maioria, da Pastoral de Juventude da Diocese do Crato, que, na época, era chamada de Movimento de Juventude do Crato (MOJUCRA). Foram estes jovens que fundaram o Grupo de Artes Por Exemplo, além de proporem a realização de um festival de música nos moldes daqueles que aconteciam no eixo Rio-São Paulo. Geraldo Urano, que atendia pelo nome de Geraldo Lima Batista, não foi somente um participante dentre os outros, - foi um dos principais protagonistas daquele coletivo de artista. É o que demonstra a citação a seguir:

“Em 1971 acontecia a penúltima edição do Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro, e o primeiro Festival Regional da Canção do Cariri, idealizado por Luiz Carlos Salatiel e Geraldo Urano, dois da Turma do Parque[12] que participavam do grupo católico Movimento da Juventude. O apoio do Padre Bosco foi fundamental para a criação do Festival, mas a interferência da Diocese não impossibilitou o evento de ser contestador e revolucionário, como deveria. Geraldo, que já havia sido Gandhi, Palitó, Efe e Batista antes de se autodenominar Urano, em uma das edições, foi carregado dentro de um caixão da entrada da Quadra Bicentenário até o palco” (CONSPIRAÇÃO, 2014, p.48).

Ou seja, o protagonismo uraniano, extrapolando os versos escritos e publicados, alcançava outros meios, onde o próprio corpo era também um instrumento de expressão. Suas performances no Festival da Canção do Cariri, evento que aconteceu de 1971 a 1978, em Crato, são sempre lembradas pelos detentores da memória deste evento, como pode ser comprovado na citação acima. Assim também, pode-se dizer, foram antológicas as suas ‘intervenções’ nas várias edições do Salão de Outubro, mostra de artes promovida anualmente pelo grupo Por Exemplo, e que repercutia pela significativa representatividade de artistas participantes e diversidade de manifestações artísticas, como também pelo propósito de reunir as vanguardas artísticas e as manifestações ditas populares. Como um artista de vanguarda, Geraldo realizou performances originais e inéditas, para a época e para o meio, a exemplo de, numa demonstração de body art, expor o próprio corpo como parte de uma instalação artística. A cena, recapitulada pela memória de um artista contemporâneo, foi mais ou menos assim:

“Corria o ano de 1974. Tempo fechado ainda. Os artistas cratenses driblavam a censura da plena ditadura e a monotonia da província cratense. Reinventavam-se como podia. O Salão de Outubro daquele ano, muito propositadamente, realizava-se nas dependências do antigo prédio que tinha sido um dia a Casa de Câmara e Cadeia. Numa das celas, quase uma masmorra, o poeta Geraldo Urano, exibindo sua magreza existencial e exibindo-se como uma obra de arte, permaneceu todo o tempo em que durou o salão, sentado como um yogui entre cacos de vidro e observando, com uma luneta, o público visitante[13].

Se a produção literária de Geraldo Urano, realizada entre as décadas de 1970 e 1990, tem alguma marca definidora, esta é a da ousadia das experimentações de linguagem, sem que a forma se sobreponha ao conteúdo.  A mensagem é muito forte, visto que ele sempre tem algo a dizer, demarcando espaços e pontos de vista. Neste sentido, o apogeu de sua obra é a década de oitenta, quando lançou dois interessantes livros: Vaga-Lumes (1984) e O Belo e a Fera (1989), além de publicar em jornais alternativos e compor canções em parceria com músicos da região. É dessa lavra a sua preocupação com o que na época se denominava de causa ecológica, onde o poeta denuncia os pesadelos da sociedade industrial contemporânea que são “vendidos” como se fossem itens de conforto:

uma coisa é sonhar

um dia viajar de Boeing

outra coisa é pensar

no que vai pelo coração das baleias

em seu coração

sabe que no mundo deles

baleia quer dizer dinheiro

e são capazes de confundir

rodelas de cenoura com moedas de ouro

 

Geraldo Urano, bem além da perspectiva de militância ecológica que se desenvolvia na época, ainda bastante romantizada, cuja tônica era preservação da fauna e da flora em detrimento do próprio homem e de sua ambiência, - instiga uma simbiose holística, numa viagem ao centro da terra cuja senha é sentir-se um Jonas no interior da baleia. Em outro poema, se condói da desgraça de ser bacalhau nos mares da Noruega, tal como ser negro na África do Sul na época do apartheid. Mesmo assim, são os homens os amaldiçoados:

a lua cheia vagueia no céu de oslo

e nos mares...

lá embaixo os bacalhaus amaldiçoam a Noruega[14]

 

Ou ainda:

as aves voam e pousam

e voam e comem e voam e dormem

e voam e trepam e voam

e pousam e têm filhotes

e voam e cantam

e morriam

e hoje são mortas

(URANO, 1984, p. 53)

 

Naquela época ainda havia uma dicotomia entre a militância política propriamente dita e a militância ecológica, que depois seria chamada de política ambiental. A contribuição de Geraldo Urano, entretanto, foi muito além desta questão, visto que a tônica do seu discurso é o de enfrentamento direto ao establishment capitalista.

O bom combate da geração sessenta/setenta era contra um inimigo que, apesar de real, não tem uma única face e uma forma palpável: o velho e combatido establisment. Por isso, a luta a favor da vida e da felicidade vai dar-se em várias frentes, seja contra as ditaduras políticas que se instauram quase como uma regra no Terceiro Mundo, ameaçado que estava por uma onda revolucionária quase que totalmente jovem (tida pelo establishment como subversiva), seja contra aquilo que de mais conservador, no sentido reacionário e reativo às novas utopias, a geração anterior encarnava. Geraldo Urano, no entanto, não vai colocar sua poética a favor de uma militância partidária ou a uma causa política no sentido estrito do termo. Ao cantar Cuba, sua inspiração não foi a revolução encetada pelos ‘barbudos de Sierra Maestra’, mas da Cuba de

[...] homens, mulheres

e crianças

[...]

uma parte do corpo

a terra

como brasil e Holanda

[...]

bonita como é bonito

um olho

ou qualquer outra

parte do corpo

por que vou fazer regime...

quando devo

consumir tanta esperança...

(URANO, 1984, p. 73)

 

Assim é a poesia uraniana: sem rédeas, sem limites, sem fronteiras, sem fim. Por isso, morreu hoje apenas o homem-matéria, pois o homem-poeta-espírito-luz continuará eterno, reverberando seus versos através das gerações e dos tempos.

Geraldo Urano, o mais novo imortal deste espaço-cósmico, que nós hoje, sob as bênção do Poeta, chamamos de Craterdã.

SALUTE, POETEIRO!

 

NOTAS

1. Geração Mimeógrafo, como ficou conhecida também a Poesia Marginal, foi um movimento literário que eclodiu, notadamente, no Rio de Janeiro na década de 1970, estando ligada ao fato de que muitos poetas recorriam ao mimeógrafo para copiar seus livros em um processo artesanal e sem qualquer tipo de vínculo com editoras, que não se interessavam pela produção dos chamados poetas marginais porque estes subvertiam os padrões literários e artísticos convencionados pela indústria cultural.

2. Vaga-Lumes (1984) e O belo e a Fera (1988).

3. Despretencionismo (1975), em parceria com Rosemberg Cariry (Antônio Rosemberg de Moura).

4. O ferrolho do abismo (2015).

5. Poesia de agora (1981).

6. Dentre outros, Seriará, Nação Cariri, Folha de Piqui e Jornal Sensurado.

7.  A cor do lírio (1986).

8. Dentre outros, Guerra e Paz (Cleivan Paiva, 1983), Avallon (Abidoral Jamacaru, 1987), Nação Cariri (Bá Freire), Contemporâneo (Luiz Carlos Salatiel, 2004) e Na lata (Nacacunda, 2006).

9. No início dos anos 1970, Geraldo Urano viajou por vários estados brasileiros, deslocando-se através de caronas e sobrevivendo de artesanato, no mais autêntico estilo de vida hippie. Essa informação foi registrada na antologia Poesia de Agora (1981), organizada por Carneiro Portela..

10. Publicado na edição de estreia do Folha de Piqui Jornal cultural alternativo que circulou no Cariri, em descontinuada periodicidade, na década de 1980.

11. Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri, localizado em Juazeiro do Norte.

12. Turma do Parque era a designação informal do coletivo de jovens artistas que frequentavam assiduamente o antigo Parque Municipal do Crato, hoje Praça Alexandre Arraes, localizada no centro da cidade. Alguns moravam nas imediações, como o caso de Geraldo Urano.

13. Depoimento dado ao autor pelo fotógrafo Jackson Bantim em 3 de agosto de 2016.

14. Trecho de poema publicado na antologia Poesia de Agora, organizada por Carneiro Portela e lançada pela Secretaria de Cultura e Desporto do Estado do Ceará, no ano de 1981.

 Texto Carlos Rafael Dias

  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CARIRY, Rosemberg. “Todos os caminhos levam ao Massafeira”. In: SOUSA, Ednardo Soares da Costa (Org.). Massafeira: 30 anos Som, Imagem, Movimentos, Gente. Fortaleza: Edições Musicais, 2010, pp. 96-123.

________. Prefácio da primeira edição do livro Vaga-lumes, ano 1984. In: O ferrolho do abismo. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015, pp. 14-15.

CONSPIRAÇÃO de Aquárius, in: Cariri Revista. Edição 14, Set/Out 2014, pp. 46-51.

MARQUES, Roberto. Contracultura, tradição e oralidade: (re)inventando o sertão nordestino na década de 70. São Paulo: Annablume, 2004.

REJANE, Cláudia. Prefácio In: O ferrolho do abismo. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015, pp. 6-10.

URANO, Geraldo. Vaga-Lumes. Fortaleza: Nação Cariri Editora / Livraria Gabriel, 1984

_______. O ferrolho do abismo: poesias completas. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015

 

 

Os papéis do inglês, de Ruy Duarte de Carvalho

Em Os papéis do Inglês, obra de ficção portuguesa publicada em 2000 e primeiro romance do antropólogo Ruy Duarte de Carvalho, o autor repete um procedimento romanesco que usou em sua obra anterior, Vou lá visitar pastores, ou seja, escrever a alguém. Esse procedimento simultaneamente extrapola e estrutura a prosa como pretexto de relato dirigido, neste caso, a uma destinatária que se insinua e instala no texto. São e-mails que servem de suporte a uma narrativa densa, povoada de referências, observações e reflexões pessoais: "Cada um de nós, aqui ao fim destes anos de perplexidade constante, transporta para onde vai as marcas do exercício pessoal da sua sobrevivência."

O autor embrenha-se na decifração do mistério dos documentos deixados por um caçador inglês, que andara pelo seu território de eleição nas primeiras décadas do século passado, e aos quais já se referira, incidentalmente em sua obra Vou lá visitar pastores.

Em primeira pessoa, conta uma história de ganância, violência e paixão. Um professor universitário decide viajar para a África para investigar o suicídio, ocorrido em 1923, de um caçador de elefantes. Este caçador, depois de matar um companheiro de profissão grego às margens do rio Kwando, na fronteira com a atual Zâmbia, e de se entregar às autoridades portuguesas que não lhe dão ouvidos, volta ao acampamento e abate a tiros tudo o que vê pela frente terminando por disparar a arma contra o próprio peito. Uma ficção hesitante que informada pela antropologia, preza o princípio de que a busca vale mais que o achado. As peripécias vividas pelo protagonista, o professor, ressoam numa dimensão individual. Ele desconfia que algo sobre sua personalidade pode ser descoberto na trajetória desse caçador inglês.

Por esse mesmo princípio, o caminho só pode ser visto pelo acúmulo e pela sobreposição de histórias. O que ocorre então é uma narrativa em permanente suspeita perante si mesma, a questionar-se, interrompendo-se para revelar, por um processo análogo ao relativismo antropológico.

Com uma prosa de sabor incomum, que explora toda a riqueza vocabular do português angolano, é uma obra que discute não apenas os limites do homem num ambiente hostil mas também as possibilidades da linguagem ficcional. É ela que pode redimir as desilusões do professor, crescentes à medida que sua investigação se aproxima do desfecho, e atenuar, quem sabe, a dureza de um mundo no qual os sonhos parecem estar para além da fronteira, para além de todas as fronteiras.

A impressão que se tem é que Ruy Duarte de Carvalho serve-se de uma estória angolana para fazer também a sua teoria da literatura, de dentro de um país em crise permanente, onde se consome e vive como se o mundo fosse acabar amanhã.

Fonte parcial: Bernardo Carvalho, para o jornal Folha de S. Paulo

 

 

Sonetos, de Luís de Camões

Publicados a partir de 1595, portanto, postumamente (seu autor morrera então entre 1579 e 1580, provavelmente), os Sonetos de Luís de Camões têm desde então assumido um lugar de destaque em toda a literatura de língua portuguesa, tornando-se grande influenciador até da poesia atual (são vários os poetas que de uma forma ou de outra se mostraram influenciados por Camões. No Barroco, encontramos Gregório de Matos Guerra.

No Arcadismo, deve-se lembrar dos nomes de Bocage, em Portugal, e Cláudio Manuel da Costa, no Brasil. Já no Romantismo, é vasta a lista dos literatos que se inspirarão no seu modelo, principalmente na teoria de que o amor é um sentimento que não pode ser devassado pela razão, como se percebe tão bem no célebre soneto “Amor é fogo que arde sem se ver”.

Aliás, essa forma poemática, consagrada pelo grande poeta português, tornou-se muito comum no Parnasianismo e no Simbolismo, sendo mais para frente usada no Pré-Modernismo, nas mãos de Augusto dos Anjos. Por fim, o Modernismo, que ingenuamente é caracterizado como escola que rejeita o passado, a tradição, também tem se inspirado em Camões. É o caso de Vinicius de Moraes).

Essa forma poemática é bastante antiga e pode ser definida como qualquer poema constituído por 14 versos. No entanto, a configuração consagrada por Camões em nossa língua foi criada pelo renascentista italiano Francesco Petrarca e se constitui de 14 versos decassílabos distribuídos em dois quartetos e dois tercetos.

No entanto, a força petrarquiana (deve-se lembrar de que, se Camões é influenciado por Petrarca, isso de maneira alguma indica uma inferioridade daquele em relação a este. Muito pelo contrário, há momentos em que o poeta português chega a superar o italiano, até mesmo quanto parafraseia os poemas deste, como é o caso do célebre “Alma minha gentil, que te partiste”) não se manifesta apenas nesse aspecto formal. No campo temático tal também irá se realizar, como podemos perceber no texto abaixo:

Sonetos de Luís de Camões

Transforma-se o amador na cousa amada,

por virtude do muito imaginar;

não tenho, logo, mais que desejar,

pois em mim tenho a parte desejada.

 

Se nela está minha alma transformada,

que mais deseja o corpo de alcançar?

Em si somente pode descansar,

pois consigo tal alma está liada.

 

Mas esta linda e pura semideia,

que, como um acidente em seu sujeito,

assi co a alma minha se conforma,

 

está no pensamento como ideia:

[e] o vivo e puro amor de que sou feito,

como a matéria simples busca a forma.

Note no texto acima que o poeta não apenas confessa seus sentimentos. Há uma análise, um filosofar sobre eles, o que possibilita caracterizar seu lirismo como reflexivo. Não é à toa, portanto, que predomina no poema um amplo jogo de raciocínio, revelado por conectivos ou articuladores que revelam um caminhar lógico de pensamento, como “por virtude”, “logo”, “pois”, “se”.

Tal estrutura filosófica é também percebida pela própria engenharia do texto. Veja que o primeiro verso é uma tese, explicada no segundo. O terceiro verso é uma exemplificação do postulado do primeiro. O quarto verso é uma explicação/justificação do que está exposto no anterior.

Outro aspecto importante e que será encontrado no conjunto da obra, Sonetos de Luís de Camões, é o uso de uma primeira pessoa que não compromete o ideal de universalismo tão cobrado em sua escola literária, o Classicismo. Ou seja, o que é apresentado nos terceiro e quarto versos (o eu lírico não deseja a amada) é exemplificação da tese exposta no primeiro verso.

É notável em tal soneto outra influência de Petrarca, que é a presença do neoplatonismo. No entanto, Camões reinterpreta-o de sua própria maneira, o que permite identificar o que se chama da neoplatonismo camoniano. Para perceber esse aspecto de forma mais nítida, analisemos o soneto a seguir.

Alma minha gentil, que te partiste 

tão cedo desta vida descontente, 

repousa lá no Céu eternamente, 

e viva eu cá na terra sempre triste.

 

Se lá no assento etéreo, onde subiste, 

memória desta vida se consente, 

não te esqueças daquele amor ardente 

que já nos olhos meus tão puro viste.

 

E se vires que pode merecer-te 

algua cousa a dor que me ficou 

da mágoa, sem remédio, de perder-te,

 

roga a Deus, que teus anos encurtou, 

que tão cedo de cá me leve a ver te, 

quão cedo de meus olhos te levou.

Esse texto trabalha com oposições entre “lá” e “cá”, “Céu” e “terra”, “repousa (…) eternamente” e “viva (…) sempre triste”, que podem ser interpretadas como uma antinomia entre feminino e masculino: à amada cabem os primeiros termos; ao eu lírico, os segundos. Mas pode ser vista também uma oposição entre céu/espírito (ela), com características positivas, e terra/carne (ele), com características negativas.

Esse é o contraste básico do neoplatonismo, de acordo com o qual a matéria, a carne, o corpóreo, é inferior ao ideal, ao espiritual. É dentro desse terreno que surge a expressão “amor platônico”, ou seja, aquele que se manifesta plenamente sem a necessidade do carnal, do corpóreo, preso apenas à ideia, ao pensamento. É a tese presente nos quartetos do outro soneto, “Transforma-se o amador na cousa amada”.

No entanto, os versos 7-8 de “Alma minha gentil, que te partiste” demonstram como Camões reinterpreta essa teoria. Basta observar que o eu lírico pede que sua amada, um espírito, lembre-se do amor ardente (obviamente, de valor carnal) que ele já mostrara tão puro nos próprios olhos (obviamente, um valor espiritual).

Há, portanto, uma fusão entre carnal e espiritual, ou seja, entre matéria e ideia – o espiritual tem elementos carnais e o carnal tem elementos espirituais. Essa mesma fusão é percebida em “Transforma-se o amador na cousa amada”, basicamente entre a ideia dos quartetos (primado do espiritual) e os tercetos (primado do carnal). Sua conclusão é a de que a ideia precisa da matéria para se realizar plenamente.

O soneto anteriormente exposto, ao opor masculino e feminino, acaba derramando elementos carnais ao homem e quase os eliminando por completo na mulher, que acaba se tornando uma figura etérea, divina. Eis outra clara influência petrarquista. É o que se percebe abaixo.

Sonetos de Luís de Camões

Quando da bela vista e doce riso, 

tomando estão meus olhos mantimento, 

tão enlevado sinto o pensamento 

que me faz ver na terra o Paraíso.

 

Tanto do bem humano estou diviso, 

que qualquer outro bem julgo por vento; 

assi, que em caso tal, segundo sento, 

assaz de pouco faz quem perde o siso.

 

Em vos louvar, Senhora, não me fundo, 

porque quem vossas cousas claro sente, 

sentirá que não pode merecê-las.

 

Que de tanta estranheza sois ao mundo, 

que não é de estranhar, Dama excelente, 

que quem vos fez, fizesse Céu e estrelas.

Note que as características da amada pertencem ao plano espiritual divino, o que faz o poeta ver o Paraíso e sentir-se distante do plano humano. A figura feminina é, portanto, extremamente valorizada, pois é ela quem permite voltar ao bem inicial, o Paraíso (do cristianismo) ou o Mundo das Ideias (do platonismo).

Mas boa parte dos textos analisados faz lembrar um elemento marcante da poesia camoniana: o Maneirismo. Trata-se de uma vertente que de um lado mantém afinidade com o Classicismo, principalmente em seu aspecto formal. Mas, por outro lado, afasta-se, pois busca um rebuscamento da linguagem que se aproxima do estranho, do extravagante do Barroco. É o que se identifica no mais célebre soneto camoniano, transcrito a seguir.

Sonetos de Luís de Camões

Amor é um fogo que arde sem se ver, 

é ferida que dói, e não se sente; 

é um contentamento descontente, 

é dor que desatina sem doer.

 

É um não querer mais que bem querer; 

é um andar solitário entre a gente; 

é nunca contentar-se de contente; 

é um cuidar que ganha em se perder.

 

É querer estar preso por vontade; 

é servir a quem vence, o vencedor; 

é ter com quem nos mata, lealdade.

 

Mas como causar pode seu favor 

nos corações humanos amizade, 

se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Observe que o mais interessante nesse texto é que ele utiliza uma metodologia filosófico científica ao trabalhar com uma definição: sujeito (amor), verbo de ligação (“é”) e predicado que define o elemento estudado. No entanto, bastante curioso é perceber que esse predicado, ao invés de precisar o objeto de análise, mais impreciso o torna, pois o faz por meio de antíteses, paradoxos e oximoros, figuras de linguagem muito utilizadas no Maneirismo e Barroco.

No entanto, não se deve entender esse esquematismo linguístico como uma mera brincadeira com as palavras. A proposta é bem mais séria e se encaminha para a ideia de que o amor é um sentimento que não pode ser definido, ou seja, que não pode ser controlado pela razão – tese, aliás, caríssima entre os românticos.

É também característica maneirista muito presente em Camões a visão desencantada, pessimista em relação à vida. Note como tal se observa no poema abaixo.

Sonetos de Luís de Camões

Busque Amor novas artes, novo engenho, 

para matar me, e novas esquivanças; 

que não pode tirar-me as esperanças, 

que mal me tirará o que eu não tenho.

 

Olhai de que esperanças me mantenho! 

Vede que perigosas seguranças! 

Que não temo contrastes nem mudanças,

andando em bravo mar, perdido o lenho.

 

Mas, conquanto não pode haver desgosto 

onde esperança falta, lá me esconde 

Amor um mal, que mata e não se vê.

 

Que dias há que n’alma me tem posto 

um não sei quê, que nasce não sei onde, 

vem não sei como, e dói não sei porquê.

A experiência amorosa, como se vê, nem sempre é apresentada como positiva. Aliás, a lírica camoniana aborda as múltiplas facetas desse sentimento, desde o encantamento graças ao contato com o objeto amado até a dor provocada pela frustração de expectativas ou pelo fim de um relacionamento.

Mas o mais chamativo, como se disse, é este segundo aspecto, que faz o poeta encarar o conhecimento amoroso como produtor de dores e decepções. Ainda assim, é curioso notar que o poeta ainda consegue, por pior que seja a sua situação, expressar, no quinto verso, uma ironia, amarga, mas que revela um caráter espirituoso.

No entanto, seu lirismo não se coloca restrito ao amor. Há também em Camões uma abordagem filosófica que se envereda pelos problemas que afetam a existência humana, como se detecta no texto a seguir.

Sonetos de Luís de Camões

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, 

muda-se o ser, muda-se a confiança; 

todo o mundo é composto de mudança, 

tomando sempre novas qualidades.

 

Continuamente vemos novidades, 

diferentes em tudo da esperança; 

do mal ficam as mágoas na lembrança, 

e do bem (se algum houve), as saudades.

 

O tempo cobre o chão de verde manto, 

que já coberto foi de neve fria, e, enfim, 

converte em choro o doce canto.

 

E, afora este mudar-se cada dia, 

outra mudança faz de mor espanto, 

que não se muda já como soía.

Enfrenta-se aqui um tema antiquíssimo, presente até no livro bíblico Eclesiastes e na literatura das antigas Grécia e Roma, que é a efemeridade, ou seja, o caráter passageiro dos bens da vida.  Sua conclusão, no entanto, acaba por assumir, por meio de sua ideia paradoxal, um tom típico do Maneirismo, lembrando o tom dos textos barrocos.

Portanto, entende-se por que a obra lírica de Camões, principalmente os sonetos, acaba por se tornar um monumento da língua portuguesa, não apenas por causa da maneira como sua linguagem é elaborada, com graça, equilíbrio e maestria, mas também pelo denso conteúdo que expressa e toca fundo nas experiências humanas. Seus sonetos, pois, assumem facilmente a posição de clássicos.

 

 

Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles

A obra Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, foi publicado em 1953, e escrito na década de 1940 quando sua autora, então jornalista, chegou a Ouro Preto, com a finalidade de documentar os eventos de uma Semana Santa. Assim, envolvida pela “voz irreprimível dos fantasmas”, conforme dissera, passou a reescrever, de forma poética, os episódios marcantes da Inconfidência Mineira, destacando, evidentemente, o martírio de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, personagem principal da obra.

O Romanceiro é formado por um conjunto de romances, poemas curtos de caráter narrativo e/ou lírico, destinados ao canto e transmitidos oralmente por trovadores e que permaneceram na memória coletiva popular. Expressão poética específica do passado ibérico: saída técnica para dar maior autenticidade e força evocativa ao episódio histórico.

Seus autores, em regra geral, ficaram anônimos. Os romanceiros eram conhecidos na Espanha e em Portugal desde o século XV e tinham várias funções: informação, diversão, estímulo agrícola, doutrinamento político e religioso.

A temática remete o leitor à época da Inconfidência Mineira (1789), daí o caráter nacionalista e histórico da obra. Associando verdade histórica, tradições e lendas, e utilizando a técnica ibérica dos romances populares, a poetisa recria a atmosfera da Vila Rica (hoje Ouro Preto) dos Inconfidentes. A mineração, as rivalidades e contendas, os altos impostos cobrados pela Coroa, a conscientização de alguns intelectuais e letrados, os ideais de liberdade, as Academias e as tendências arcádicas renascem, ao mesmo tempo em que se faz a defesa dos oprimidos. A autora conta a história da tentativa de libertação do Brasil ocorrida em Minas Gerais no século XVIII. O título obedece a uma terminologia própria dos romances espanhóis medievais – época em que a palavra “romance” aplicava-se também a obras em verso.

No Romanceiro, o elemento histórico é bastante forte, como já citado. Contudo, o que a autora tenta recuperar é menos os fatos históricos em si, e mais o ambiente e as sensações envolvidas na revolta. Assim, cada elemento histórico adquire um valor simbólico: a busca do ouro representa a ambição e a cobiça; a conspiração esconde a esperança e o fracasso; as prisões dos envolvidos são focalizadas como situações de medo; o degredo é visto como momento de perda e saudade; e as punições finais mostram todo o desengano da derrota política.

Portanto, não há essa preocupação de focalizar essencialmente o fato histórico que envolveu os inconfidentes, a obra vai muito além do próprio tempo que tematiza. A poetisa não se afastou do seu conhecido estilo, composto de atmosferas fugidias e imprecisas, e preocupada com o registro das sensações, com o clima predominante no momento da revolta, de incertezas e de medo. É o que está além da realidade, invisível e, quase sempre, intransponível para aqueles que não são dotados de sensibilidade poética.

A obra caracteriza-se como uma obra lírica, de reflexão, mas com um contexto épico, narrativo, firmemente apoiado no fato histórico. Em 1789, inspirados pelas ideias iluministas europeias e pela independência dos Estados Unidos (1776), alguns homens tentam organizar um movimento para libertar a colônia brasileira de sua metrópole portuguesa. A colônia sofria pesada carga tributária sobre o ouro extraído das Minas Gerais deixava os que viviam dessa renda cada vez mais descontentes. Assim, donos de minas, profissionais liberais – entre os quais alguns poetas árcades – e outros começaram a conspirar contra Portugal. Contudo, o movimento é delatado (Joaquim Silvério dos Reis e outros) e os envolvidos, presos. Alguns são condenados ao exílio (Moçambique e Angola), e o único a ser executado, na forca, e depois esquartejado, é Tiradentes, em 21 de abril de 1792.

 

Composição da obra

Há um fio narrativo que passa através dos vários romances que compõem o Romanceiro, sem que a ação se sobreponha à reflexão. Alguns cortes permitem a mudança de ambientes ou de figuras que permitem ao narrador surgir diante do público e anunciar-lhe nova situação dramática.

Há três estruturas que se alternam no poema:

• Romances - a obra apresenta-se estruturada em 85 romances, além de outros poemas, como os que retratam os cenários. Total de 95 textos. Em sua composição, é utilizada principalmente a medida velha, ou seja, a redondilha menor, verso de cinco sílabas poéticas (pentassílabo) e, predominantemente, a redondilha maior, verso de sete sílabas (heptassílabo), além de versos mais curtos, tercetos, quadras, sextilhas, refrãos e versos decassílabos. Os romances não são dispostos na sequência cronológica dos acontecimentos; ora aparecem isolados, ora constituem-se em verdadeiros ciclos (o de Chica da Silva, o do Alferes, o de Gonzaga, o da Morte de Tiradentes, o de Gonzaga no exílio, o de Bárbara Heliodora, o da Rainha D. Maria);

• Cenários- situam os ambientes, marcando as mudanças de atmosfera e localizando os acontecimentos: Imaginária serenata e Retrato de Marília.

• Falas - representam uma intervenção do poeta-narrador, tecendo comentários e levando o leitor à reflexão dos fatos referidos: Fala inicial, uma Fala à antiga Vila Rica, uma Fala aos pusilânimes, uma Fala à comarca do Rio das Mortes e pela Fala aos inconfidentes mortos.

 

A obra pertence ao Modernismo – Geração de 30. Na definição da própria autora, é uma narrativa rimada, onde Cecília Meireles retoma uma forma poética de tradição ibérica, denominada romance (composição de caráter popular, escrita em redondilha), para reconstruir o episódio da Inconfidência Mineira e extrair, de um fato passado, datado, limitado geográfica e cronologicamente, valores que são eternos e significativos para a formação da consciência de um povo. A própria autora afirmou tratar-se de "uma história feita de coisas eternas e irredutíveis: de ouro, amor, liberdade, traições...". A poesia de Cecília é caracterizada aqui, como no resto de sua obra, por um tom lírico e intimista.

A crítica observou que não é possível estabelecer uma divisão rigorosa da matéria tratada por Cecília Meireles. O romanceiro avança ou faz regredir uma perspectiva, além dos poemas transitórios, feitos de considerações de momento, verdadeiros parênteses ou interpolações da poetisa (alguns desses poemas não recebem o título de “romance”). Não há consenso, mas seguindo o crítico Darcy Damasceno e outros estudiosos, é possível verse um plano geral de composição:

• Primeira parte: a “Fala Inicial”, o primeiro “Cenário” e os romances I — XX.

• Segunda parte: Romances XXI — XLVII.

• Terceira parte: Romances XLVIII — LXIV.

• Quarta parte: Romances LXV — LXXX.

• Quinta parte: Romances LXXXI — LXXXV, mais a Fala aos Inconfidentes Mortos.

São versos escritos em redondilha maior (verso heptassílabo = sete sílabas poéticas). Sem rimas externas regulares (versos brancos), e a exploração da camada sonora, através de aliterações e assonâncias, conferem à Fala Inicial um tom enfático, declaratório, reforçado pelas exclamações e interrogações.

Existe musicalidade nos versos, uso de símbolos e apelos sensoriais, características comuns na poesia neo-simbolista. A herança simbolista e o espiritualismo: um ar de mistério, de crença no imaterial, no extraterreno, perpassa todo o poema. O culto do etéreo, das palavras aéreas marca a ânsia de dar forma ao informe. Expressões como: atroz labirinto de esquecimento, mistério, esquema sobre-humano, silenciosas vertentes, inexplicáveis torrentes instauram um halo espiritualista de crença no imaterial.

"Descem fantasmas dos morros,

vêm almas dos cemitérios:

todos pedem ouro e prata,

e estendem punhos severos,

mas vão sendo fabricadas

muitas algemas de ferro"

Aqui vemos o ciclo do ouro retratando a busca incansável por ouro e o resultado disso: cobiça, vaidade, ganância, violência, roubo, prisões.

todos pedem ouro e prata,

e estendem punhos severos

Eis o retrato da violência!

O tom evocativo: o mergulho no passado, no atroz labirinto do tempo, nas ressonâncias incansáveis de Vila Rica revela a ânsia da procura de um significado para os fatos:

Ó meio-dia confuso

ó vinte-e-um de abril sinistro,

que intrigas de ouro e de sonho

houve em tua formação?

Quem condena, julga e pune?

Quem é culpado e inocente?

É como se a poetisa, evocando Tiradentes na força, questionasse a casa do martírio. Foi a ambição do ouro? Foi o sonho de liberdade que iluminou aquela gente?

O tom inquiridor: o clima de mistério e ansiedade, as lacunas históricas incontornáveis e a busca de um sentido para os fatos projetam-se nas interrogativas que surgem a cada momento.

Revelando o mistério que envolve até hoje o "embuçado" e a morte de Cláudio Manuel da Costa, o Romance XXXVIII é composto só de interrogações. O embuçado teria sido um mensageiro mascarado, disfarçado, que viera para tentar salvar Cláudio Manuel da Costa:

Homem ou mulher? Quem soube?

Veio por si? Foi mandado?

A que horas foi? De que noite?

Visto ou sonhado?

A dualidade: reflete a ambivalência ou ambiguidade que caracterizam as ações do homem - herói e traidor, ódio e amor, punhal e flor, bons e maus, riqueza e miséria. Observe, na Fala Inicial:

amores x ódios (v.4);

intrigas de ouro e de sonho; (v.19);

culpado x inocente (v.22);

castigo x perdão (v.24),

coroas x machados (v.31);

mentira x verdade (v.32);

ruínas x exaltação (v.43).

Ganham relevo as passagens que refletem a dualidade entre a justiça e a tirania, entre a liberdade e a opressão:

Em baixo e em cima da terra

o ouro um dia vai secar.

Toda vez que um justo grita,

um carrasco o vem calar.

Quem sabe não presta, fica vivo,

quem é bom, mandam matar. (Romance V)

Ai, terras negras d´África,

portos de desespero...

- quem parte, já vai cativo;

- quem chega, vem por desterro. (Romance LXVII)

Neste fragmento, a autora tece considerações de como foi composto seu Romanceiro da Inconfidência. A este respeito, ela aborda os limites entre a criação literária e a História, mostrando os limites e as relações entre ambas:

“(...)

Assim, a primeira tentação, diante do tema insigne, e conhecendo-se tanto quanto possível, através dos documentos do tempo, seus pensamentos e sua fala seria reconstruir a tragédia na forma dramática em que foi vivida, redistribuindo a cada figura o seu verdadeiro papel. Mas se isso bastasse, os documentos oficiais com seus interrogatórios e respostas, suas cartas, sentenças e defesas realizariam a obra de arte ambicionada, e os fantasmas sossegariam, satisfeitos. Nesse ponto descobrem-se as distâncias que separam o registro histórico da invenção poética: o primeiro fixa determinadas verdades que servem à explicação dos fatos; a segunda, porém, anima essas verdades de uma força emocional que não apenas comunica fatos, mas obriga o leitor a participar intensamente deles, arrastado no seu mecanismo de símbolos, com as mais inesperadas repercussões. Ainda que se soubessem todas as palavras de cada figura da Inconfidência, nem assim se poderia fazer com o seu simples registro uma composição da arte. A obra de arte não é feita de tudo, mas apenas de algumas coisas essenciais. A busca desse essencial expressivo é que constitui o trabalho do artista. Ele poderá dizer a mesma verdade do historiador, porém de outra maneira. Seus caminhos são outros, para atingir a comunicação. Há um problema de palavras. Um problema de ritmos. Um problema de composição. Grande parte de tudo isso se realiza, decerto, sem inteira consciência do artista. É a decorrência natural da sua constituição, da sua personalidade por isso, tão difícil se torna quase sempre a um criador explicar a própria criação. Quanto mais subjetiva seja ela, maior a dificuldade de explicá-la é quase impossível chorar e perceber nitidamente o caminho das lágrimas, desde as suas raízes até os olhos. No caso, porém, de um poema de mais objetividade, como o "Romanceiro", muitas coisas podem ser explicadas, porque foram aprendidas, à proporção que ele se foi compondo.

Digo "que ele se foi compondo" e não "que foi sendo composto", pois, na verdade, uma das coisas que pude observar melhor que nunca, ao realizá-lo, foi a maneira por que um tema encontra sozinho ou sozinho impõe seu ritmo, sua sonoridade, seu desenvolvimento, sua medida.

O "Romanceiro" foi construído tão sem normas preestabelecidas, tão à mercê de sua expressão natural que cada poema procurou a forma condizente com sua mensagem. Há metros curtos e longos; poemas rimados e sem rima, ou com rima assonante o que permite maior fluidez à narrativa. Há poemas em que a rima aflora em intervalos regulares, outros em que ela aparece, desaparece e reaparece, apenas quando sua presença é ardentemente necessária. Trata-se, em todo caso, de um "Romanceiro", isto é, de uma narrativa rimada, um romance: não é um "cancioneiro" o que implicaria o sentido mais lírico da composição cantada.

Nesse ponto, já ficara ultrapassada a ideia de uma composição dramática. Impossível distribuir a cada personagem seu verdadeiro papel: seria atribuir-lhes, por vezes, pensamentos e sentimentos incompatíveis com a sua psicologia, e dar-lhes uma linguagem que não podemos reconstituir com suficiente perfeição.

O "Romanceiro" teria a vantagem de ser narrativo e lírico; de entremear a possível linguagem da época à dos nossos dias; de, não podendo reconstituir inteiramente as cenas, também não as deformar inteiramente; de preservar aquela autenticidade que ajusta à verdade histórica o halo das tradições e da lenda.

A voz irreprimível dos fantasmas, que todos os artistas conhecem, vibra, porém, com certa docilidade, e submete-se à aprovação do poeta, como se, realmente, a cada instante lhe pedisse para ajustar seu timbre à audição do público. Porque há obras que existem apenas para o artista, desinteressadas de transmissão; outras que exigem essa transmissão e esperam que o artista se ponha a seu serviço, para alcançá-la.

O "Romanceiro" é desta segunda espécie. Por isso, a parte "pessoal" que nele se encontre, é uma simples intervenção para favorecer o desenvolvimento do tema: aqui, o artista apenas vigia a narrativa que parece desenvolver-se por si, independente e certa do que quer. Os "cenários" são intervenções para marcar os ambientes respectivos, exatamente como numa indicação dramática. E se o artista se permite alguma reflexão sobre o que vai acontecendo, é como espectador que comenta, entre outros comentadores imaginários, ou cronista que observa, entre outros que estão observando o que confere ao livro uma simultaneidade que se procurou assinalar até pela disposição gráfica dos versos, e pela diferença dos tipos de impressão.

(...).”

 

INTERTEXTUALIDADE

"Exaltação a Tiradentes" - samba-enredo da Escola de Samba Império Serrano, em 1949, de Mano Décio da Viola, Penteado e Stanislaw Silva:

Joaquim José da Silva Xavier

Morreu a vinte e um de abril

Pela independência do Brasil

Foi traído e não traiu jamais

A Inconfidência de Minas Gerais

Foi traído e não traiu jamais

A Inconfidência de Minas Gerais

Joaquim José da Silva Xavier

Era o nome de Tiradentes

Foi sacrificado pela nossa liberdade

Este grande herói

Filme Os Inconfidentes, de Joaquim Pedro de Andrade (1972). A Inconfidência Mineira - conspiração independentista do século dezoito, em Minas Gerais, centro das riquezas coloniais. Do grupo, faziam parte poetas e nobres, incluindo o padre e o coronel da guarnição. O dentista Tiradentes é torturado, para que divulgue a sua participação, na conjura contra a coroa portuguesa; os cúmplices já haviam confessado, negando responsabilidades próprias. Tiradentes é o único a assumir-se plenamente, sendo condenado à morte. Baseado em "Autos da Devassa" de Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto. E "Romanceiro da Inconfidência" de Cecília Meireles. Enunciação de flashes cinematográficos.

Museu da Inconfidência - No museu é retratada a Inconfidência Mineira (1789), movimento pela Independência do Brasil baseado na Independência Americana, e que não teve sucesso, devido a sua delação. O Museu possui objetos do final do século XVIII (travas da forca de Tiradentes), utilizados por inconfidentes, ou do cotidiano dos trabalhadores e civis da cidade. O museu se localiza na praça Tiradentes, em frente ao monumento a Joaquim José da Silva Xavier, principal e mais famoso ativista da Inconfidência.

Créditos: Prof. Jorge Alberto, Colégio Procampus | Escola 24 horas

 

Questões

1. Texto para responder às questões 01 e 02.

Romance XXXIV ou de Joaquim Silvério

Melhor negócio que Judas

fazes tu, Joaquim Silvério:

que ele traiu Jesus Cristo,

tu trais um simples Alferes.

Recebeu trinta dinheiros...

-- e tu muitas coisas pedes:

pensão para toda a vida,

perdão para quanto deves,

comenda para o pescoço,

honras, glória, privilégios.

E andas tão bem na cobrança

que quase tudo recebes!

Melhor negócio que Judas

fazes tu, Joaquim Silvério!

Pois ele encontra remorso,

coisa que não te acomete.

Ele topa uma figueira,

tu calmamente envelheces,

orgulhoso impenitente,

com teus sombrios mistérios.

(Pelos caminhos do mundo,

nenhum destino se perde:

há os grandes sonhos dos homens,

e a surda força dos vermes.) (Cecília Meirelles, Romanceiro da Inconfidência.)

 

01. Considere as seguintes afirmações sobre o texto.

I. O emissor assume postura argumentativa ao exprimir juízos de valor sobre as ações de ambos os traidores célebres.

II. A significação do texto constrói-se com base numa ampla comparação, na qual se destaca crítica mais contundente à traição praticada por Joaquim Silvério.

III. O emissor enfatiza as vantagens obtidas pelos atos de Joaquim Silvério, como forma de expor sua vileza.

IV. Os versos finais, postos entre parênteses, contêm um comentário de natureza ética e generalizante que expressa o tema do texto.

Estão corretas as afirmações:

a) I e III, apenas.

b) II e IV, apenas.

c) I, III e IV, apenas.

d) II, III e IV, apenas.

e) I, II, III e IV.

 

2. À vista dos traços estilísticos, é correto afirmar que o texto de Cecília Meirelles

a) representa grande inovação na construção dos versos, marcando-se sua obra por experimentalismo radical da linguagem e referência a fontes vivas da língua popular.

b) é despida de sentimentalismo e pautada pelo culto formal expresso na riqueza das rimas e na temática de cunho social.

c) simula um diálogo, adotando linguagem na qual predomina a função apelativa, e opta por versos brancos, de ritmo popular (caso dos versos de sete sílabas métricas).

d) expressa sua eloquência na escolha de temática greco-romana e nas tendências conservadoras típicas do rigor formal de sua linguagem.

e) é de tendência descritiva e heroica, adotando a sátira para expressar a crítica às instituições sociais falidas.

 

3. Com o próprio título indica, no Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, os romances têm como referência nuclear já frustrada rebelião na Vila Rica do Século XVIII. No entanto, deve-se reconhecer que:

a) A base histórica utilizada no poema converte-se no lirismo transcendente e amargo que caracteriza as outras obras da autora.

b) As intenções ideológicas da autora e a estrutura narrativa do poema emprestam ao texto as virtudes de uma elaborada prosa poética.

c) A imaginação poética dá à autora a possibilidade de interferir no curso dos episódios essenciais da rebelião, alterando-lhes o rumo.

d) A matéria histórica tanto alimenta a expressão poética no desenvolvimento dos fatos centrais quanto motiva o lirismo reflexivo.

e) A preocupação com a fidedignidade histórica e com o tom épico atenua o sentimento dramático da vida, habitual na poesia da autora.

 

Tenha um excelente vestibular!

Professor José Roberto Duarte

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Ler 1776 vezes Última modificação em Quinta, 04 Maio 2017 10:51
José Roberto Duarte

José Roberto Duarte, iguatuense, professor do ensino básico, formado em Letras pela Universidade Estadual do Ceará.
Além da atuação educacional, é também colunista e diretor de redação do Jornal A Praça de Iguatu, e apresentador dos programas Mais Gospel e Mais Debates, aos sábados, na rádio Mais FM 106,1.

1 Comentário

  • Link do comentário Igor Quarta, 03 Maio 2017 00:06 postado por Igor

    Muito obrigado, José Roberto, sempre ajudando em prol dos vestibulandos!

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